«Não queremos legendas assim!», 4, VIII-1933, p. 3.

«Um tema palpitante», 122, 15-VII-1935, p. 2.

«Dobragem», 95, XI-1965, p. 19.

«Dobragens portuguesas», 382, 14-XII-1935, p. 2.

«Filmes dobrados em português», 276, 2-XII-1933, pp. 3-4.

«Guerra ao dubbing», 229, 7-I-1933, p. 19.

«Indústria nacional sim! Dobragem obrigatória não!», 18, 3-V-1945, pp. 2 e 11.

«Não queremos dubbing!», 3, VIII-1933, p. 14.

«Dobragem», 5, 1-II-1945, p. 5.

«A dobragem eos seus problemas», 11, 1-IX-1951, p. 7.

«A dobragem em Portugal», XII-1968, pp. 17-19.

«A dobragem e a sua legislação», 25, 21-VI-1945, pp. 3 e 10.

«A dobragem obrigatória e o espectáculo fonocinematográfico», 19, 10-V-1945, p. 4.

«A dobragem obrigatória e a… dobragem», 21, 24-V-1945, pp. 4 e 10.

«A dobragem obrigatória e a indústria nacional», 16, 19-IV-1945, pp. 4 e 10.

«A dobragem obrigatória seria esfaquear, sorrindo, a indústria cinematográfica nacional», 11, 15-III-1945, p. 10.

«A dobragem: sim ou não?», X-1969, pp. 2-5.

«A mentira do dubbing», 242, 8-IV-1933, pp. 3 e 6.

«Análise sumária do problema das legendas», 32, 9-VIII-1945, p. 3.

«Cultura e liberdade (II)», 3-VII-2005

1. A propósito de um colóquio comemorativo, recordei na última crónica (PÚBLICO, 26 de Junho de 2005) a história da “filial” portuguesa do Congrès pour la Liberté de la Culture, que começou a agir nos escritórios da então Moraes Editora, há quase 40 anos, em Dezembro de 1965.
Contei como me achei metido nessa história e como, um ano depois da fundação, fui investido como 11.º membro da agremiação e secretário executivo dela.
Em Dezembro de 1966, começaram as minhas frequentes visitas a Paris. O hotel era sempre o mesmo e chamava-se (chama-se?) du Levant, numa pequena paralela do Boulevard Saint Michel – a Rue de la Harpe – que há 40 anos (muito antes da recuperação do “quartier”) tresandava a hotéis de duas estrelas e restaurantes de uma, apoiados no gótico apastichado da Igreja de Saint-Sèverin (mas com magnífica reputação litúrgica) e na escancarada abertura da livraria La Joie de Lire, lugar de culto para o esquerdismo mais extremo (que levou à falência o proprietário, tomando demasiado à letra o célebre slogan “la propriété est un vol”).
De manhã e de tarde, ia para o tal andar do Boulevard Haussmann (recorram à crónica anterior) trabalhar com Roselyne Chenu. À noite, não as tinha que chegassem para os muitos jantares dos muitos amigos exilados em Paris, ou gozando de bolsas do “bom pai arménio”, como um dia lhe chamou João César Monteiro.
De manhã e de tarde retemperava a cultura em banhos de liberdade. À noite, iniciava-me nas ruelas da clandestinidade, política e outras. E como eu já tinha esta bendita mania cinéfila, esgueirava-me quando podia para os últimos Godard, os últimos Buñuel, os últimos Bergman e os últimos Fuller, incorrendo em iras lusitanas por trocar companhia de exilados valentes pela do burro de Bresson (Au Hasard Balthazar) como juro que aconteceu.

2. Estava eu muito aconchegado a preparar O Tempo e o Modo de 67 e o lançamento de actividades do Comité Português (abertura de delegações no Porto e em Coimbra, apoios para futuros génios nos primeiros passos na escada da glória, preparação de um número especial sobre O Tempo e o Modo de Espanha e outras mais coisas que não recordo) chegou a terrível notícia. Uma revista americana (de esquerda independente) anunciara que entre os financiadores do Congrès pour la Liberté de la Culture se encontravam duas fundações que canalizavam dinheiro da CIA. Hoje, a CIA já não faz muita impressão a ninguém, ou, vá lá, faz a mesma impressão que qualquer poderosíssimo serviço secreto. Mas em 1966 – ano II da era Johnson, com a Guerra do Vietname em apogeu, os embargos na América Latina – dizer CIA junto de alguém de esquerda – e, uns mais, outros menos, todos os éramos no comité português do Comité – era propor a representação do Marat-Sade (peça dessa altura) num convento de doroteias. Todos sentimos as nossas honras manchadas, alguns com choros e ranger de dentes, outros recordando mais cinicamente que o dinheiro não tem cor.
Pierre Emmanuel chamou-me a Paris. Oito anos antes, Agustina Bessa-Luís descrevera-o bem na Embaixada a Calígula, ela que foi a primeira portuguesa a participar numa actividade do Congrès, ainda nós Congrès não sabíamos o que fosse, e representou Portugal num famoso encontro em Lourmarin, na Provença. Escreveu ela dele: “A sua vivacidade ressurge todas as manhãs, como uma fénix, e ele mostra-se sempre mais cordial e esperançado nas primeiras horas do dia; depois decai, esmorece, demite-se lentamente e o seu rosto triste de poeta ganha ascendente sobre o espírito entusiasta e sensual.” Se isto era em 1959 e em dias de júbilo, oito anos depois, já dobrada a cinquentena, o esmorecimento e o abatimento eram muito mais pronunciados. Pior só o vi, quando meses depois ele veio jantar a minha casa de Sintra, num desses jantares que nunca começavam antes das 10 e meia, e rugiu do maple do canto: “Cette heure de diner me rend fou!”
Abatido, o poeta comunicou-me a mim e ao meu colega espanhol que o Congrès se autodissolvera. Dois elementos do pessoal – os únicos que sabiam da história da CIA – foram despedidos. Mas ele – a tal imagem da fénix – não desistia. Ia procurar novos financiamentos. Bem depressa nos procuraria.
E foi depressa. Se a dissolução parisiense se deu nos idos de Março (o tempo de me deixar passar a Páscoa em Lovaina e conhecer a Maria Belo) em Maio Pierre Emmanuel batia-nos à porta. Em vez do Congrès, nasceria a Association Internationale pour la Liberté de la Culture. Exclusiva financiadora: a Fundação Ford. Um comité director, presidido pelo célebre historiador Allan Bullock, e uma direcção executiva dirigida pelo americano Shepard Stone e com Pierre Emmanuel nas mesmas funções executivas. Mais: Pierre Emmanuel convidou Lindley Cintra para membro do Comité Director, o que dava a um português lugar máximo na hierarquia da nova orgânica.
Este passo de magia acalmou toda a gente. Mesmo os mais exasperados recuperaram confiança. Fora-se a CIA, vinha a Ford. Da Comissão portuguesa ninguém saiu e entraram mais sete nos anos seguintes.
Mas o ambiente toldou-se de novo um pouco, num jantar de despedida no Grémio Literário e em que, além de vários membros do Comité Português, me recordo das presenças de Mário Soares e de Raul Rego.
Alguém comparou fascismo e comunismo.
Nessa altura, em Portugal, comparações dessas não se faziam em jantares de esquerda. Mas Pierre Emamnuel foi mais longe. Portugal era uma ditadura, mas também era verdade que estavam ali dez portugueses (ou mais) em lugar público a dissertar livremente sobre os malefícios do regime. Contou então – nunca o esqueci – o seu encontro em Moscovo com Nadejda Mandelstam, a viú-va de Osip, o genial poeta russo morto em 1938. Ainda não tinham sido publicadas no Ocidente as memórias dela e portanto ouvimos, pela primeira vez, naquela noite, contar a história da mulher que decorou a poesia do marido para a poder transmitir. Ainda me lembro de ter objectado que, por maiores que fossem os crimes do comunismo, o eram em nome de amanhãs igualitários, de ideias puras, o que não sucedia no fascismo e aparentados. Pierre Emmanuel respondeu-me: “Hitler também prometeu para daqui a mil anos uma raça de homens perfeitos.”
No final da noite, alguns arrumavam o caso dizendo que o homem (antigo resistente) era bem reaccionário. Outros estavam mais inquietos.

3. A nova Associação tomou forma jurídica em Julho de 1967 e de novo eu fui até Paris.
Dessa vez, não ia só para assistir a uma génese. Alguns contactos de amigos próximos com o PC português conduziram-me a uma entrevista tão arriscada quanto ambicionada: encontrar-me pessoalmente com Álvaro Cunhal.
Levava uma carta. Tanto a disfarcei e escondi que, na tarde do encontro, não a consegui encontrar no meu quarto do Hotel du Levant. Já a desfazer-me em suores frios (convencido que alguém ma roubara) meti-me debaixo da cama à procura e, para ver melhor, acendi um fósforo. Quando ia desistir, senti um calor enorme. A chama pegara-se aos lençóis e só fui a tempo de os atirar pela janela fora, que felizmente dava para um saguão. Inventei que adormecera a fumar e paguei por bom preço lençóis de muito mau pano.
À hora combinada, tentando disfarçar o nervosismo, encontrei-me com o guia. Percebeu a perca. “Quando se vem de Portugal, todo o cuidado é pouco.” Depois meteu-me num carro de estores corridos, ou vidros fumados, ou seja o que for, que nada me deixava ver de lá para fora. Ainda hoje, sou incapaz de dizer em que zona de Paris, ou muito menos em que rua, Cunhal se albergava. Lembro-me, sim, da fria sala, com móveis de casa de comarca, em que me recebeu e da conversa que tivemos. Mas não houve amor à primeira vista. Nem à segunda, quando, como já contei uma vez, passei, com ele e com outros, três dias algures numa mansão de Borgonha, no ano seguinte, ano de Praga e ano de Maio.

4. Fosse pelo fogo, fosse pela corrida de carro, fosse pelo gelo do senhor, ficou-me estranha impressão desse dia de 67 em Paris. E dei comigo a pensar que, enquanto se fazia todo aquele barulho por uma eventual mãozinha de dólares no saco de uma Associação que lutava, em Portugal como na Hungria, em Espanha como na Checoslováquia, pela cultura e pela liberdade, dezenas (ou centenas) de intelectuais ilustres participavam em congressos, reuniões ou conferências a que os fundos do KGB eram tudo menos alheios.
Em Portugal, a nossa acção, entre 65 e 74, beneficiou Lopes-Graça, Giacometti, ou Armando de Castro, e nunca ninguém veio de Paris deter-nos a mão que apoiava intelectuais comunistas. Em 68, apoiámos “extremistas” como Pacheco Pereira ou Manuel de Lucena e até Jaime Gama e Alfredo Barroso receberam uma pequena soma para preparar uma manifestação contra a guerra no Vietname, em frente à embaixada americana. Ou seja, fomos livres para fazer o que quisemos fazer, ou o que a maioria do Comité Português achou que se devia fazer.
Mas, antes e depois do 25 de Abril, ouvi rosnar ou vieram dizer-me que havia quem rosnasse que eu era um homem da CIA. Não teve quaisquer consequências e, se tive a fama, nunca tive o proveito. Mas se Portugal se tivesse juntado em 1975 ao bloco das democracias populares, eu teria só rido quando me viessem perguntar pela história da CIA? Por muito menos do que isso, milhares ou milhões acabaram na Sibéria.
Que me teria adiantado jurar que acreditava combater pela liberdade e pela cultura? Com papas e bolos…
Nem liberdade nem cultura foram, alguma vez, valores prezados pela vanguarda do proletariado, ou pelos seus supostos representantes.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_07_01_archive.html

«Cultura e Liberdade (I)», 26-VI-2005

1.O passado, às vezes, salta-nos às canelas, quando menos esperamos e onde menos esperamos.
Passa mais de ano e dia, recebi uma carta de Roselyne Chenu, com quem trabalhei de muito perto cerca de oito anos (66-74) e não via há mais de vinte e cinco. Eu, sempre a jurar-me fidelíssimo, também sou assim e detesto voltar aos lugares dos crimes. Ela vinha falar-me de coisas de antanho. Andava a procurar no passado e queria saber se eu a podia ajudar. Teria eu papéis desses oito anos? Rasgara as cartas e as fotografias ou conservava-as em qualquer canto? Algumas peças do puzzle estariam comigo ou o que eu lembrava, como as mulheres e os amigos de Kane, eram coisas minhas e não coisas dela? Rosebud era ou não era palavra de que eu me lembrasse?

2. Tendo citado Citizen Kane, não se admirem se se seguir um flash-back.
Lisboa, Dezembro de 1965. Eu tinha 30 anos e dividia o meu tempo legal entre O Tempo e o Modo (uma revista de pensamento e acção, para quem não saiba) e o Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian, onde me formava em T grupos (essa inicial T serve para palavras suspeitas e sentimentos insuspeitos) e pedagogia não-directiva, o que ia a calhar com o meu feitio. O António Alçada Baptista, que inventou O Tempo e o Modo, as edições da Moraes e andava a precisar de dinheiro como de pão para a boca, viu finalmente coroados de algum êxito esforços para convencer católicos italianos ou franceses mais desempoeirados a ajudarem-no um bocadinho. Jean-Marie Domenach, director da Esprit (revista que era o mundo da ideia de O Tempo e o Modo) apresentou-o a Pierre Emmanuel, poeta e resistente. Dele (dele, Pierre Emmanuel) tinha eu decorado uns versos em tempos idos: Toute la nuit dans sa gorge / il mourût à midi / et sa dernière parole / fût un soleil inouï.
Pierre Emmanuel dirigia então o Congrès pour la Liberté de la Culture, organismo fundado em 1950 por Raymond Aron, Arthur Koestler, Salvador de Madariaga, André Malraux, Jacques Maritain, Bertrand Russell, Robert Oppenheimer, Denis de Rougemont, etc. Era uma organização subsidiada por várias fundações americanas e que apoiava revistas bem conhecidas como a inglesa Encounter e a francesa Preuves.
Em 1960, após dez anos em que o Congrès se irradiou, sobretudo nos países chamados socialistas, Pierre Emmanuel pensou na Península Ibérica e nos países que, nela, não gemiam sob o comunismo, mas atabafavam com o franquismo e com o salazarismo. Primeiro criou um comité espanhol, depois, quando conheceu o António Alçada, pensou num comité português.
Em Dezembro de 1965, na presença de Roselyne Chenu, assistente de Pierre Emmanuel e particularmente encarregada dos povos ibéricos, teve lugar a primeira reunião do Comité Português, que adaptou o púdico nome de Comissão para as Relações Culturais Europeias. Dez membros: Adérito Sedas Nunes, António Alçada Baptista, João Pedro Miller Guerra, João Salgueiro, Joel Serrão, José-Augusto França, José Cardoso Pires, José Ribeiro dos Santos, Luís Filipe Lindley Cintra e Mário Murteira. Estava representado quase todo o espectro político e quase todas as áreas do saber, com um leve favoritismo para as ditas ciências humanas (sociologia, economia, história), o que à época dava seriedade.
Tudo acabou (em Dezembro de 1965) com um festivo jantar em casa da Zezinha e do António, onde conheci melhor Roselyne Chenu. Ela tinha 33 anos (“l”âge du Christ”) olhos muito azuis e cabelo louro cortado à Jean Seberg. É a imagem que ainda tenho diante dos olhos.
Passou meia dúzia de meses. O Comité reunia-se mensalmente mas tardava a passar das palavras aos actos. Começou a ser voz corrente que fazia ali falta um “profissional”. Eu, chefe de redacção de O Tempo e o Modo e sem muita vontade de continuar a investigar pedagogia após a morte do prof. Delfim Santos em 1966, estava à mão de semear. Juntava o útil ao agradável, trabalhando sob o mesmo tecto (Av. 5 de Outubro, lá mesmo ao fim, em frente donde era a Feira Popular) para O Tempo e o Modo e para o Congrès.
Faltava-me a bênção de Pierre Emanuel. Surgiu em Setembro de 1966, quando o Congrès organizou em Aix-en-Provence um encontro entre membros do comité espanhol e do comité português, ou gente próxima. O tema era subtil: Pensamento renovador e sociedades estagnadas. De Portugal, além de mim, foram o António Alçada, o Nuno Bragança, o Cardoso Pires, o Lindley Cintra e o Mário Murteira.
Na minha comunicação, citei, de Bernanos, uma frase que já citei mais de 66 vezes na minha vida: “Il faut témoigner pour ce qui dure contre ce qui fait semblant de durer.” O Pierre Emamnuel gostou muito e convidou-me. Pedi três meses para arrumar as gavetas da Gulbenkian e prometi que em Dezembro lá estaria (lá era um magnífico e espaçoso andar do Boulevard Haussmann), para tomar posse e ser introduzido por Roselyne Chenu aos meus deveres de secretário executivo de um comité. Lá estive e de lá segui para Madrid, para juntar à aula teórica uma aula prática com o meu colega espanhol Pablo Martí Zaro.
Depois, o Congrès mobilou-me um gabinete na 5 de Outubro (castanho muito claro, cores do Duarte Nuno Simões) pagou-me um ordenado de seis contos mensais (o prof. Cavaco deve saber quanto seria hoje, mas não havia nem 13.º nem 14.º mês) e transformou-me no 11.º membro da Comissão.
Para esta, entraram ainda, entre 1967 e 1972, João de Freitas Branco, José Palla e Carmo, padre Manuel Antunes S. J, Maria de Lourdes Belchior, Nuno Bragança, Nuno Teotónio Pereira e Rui Grácio. Chegámos a ser 18.
Em 1970, quando saí de O Tempo e o Modo, mudámos da Av. 5 de Outubro para a António Maria Cardoso, para o Centro Nacional de Cultura. Aí tive casa e pucarinho quatro anos e picos. Veio o 25 de Abril, a nossa luta não continuava. Foi cada um para as suas casas. Eu trouxe para a minha todo o arquivo do Congrès, que nela jazeu (num sótão húmido) vinte e dois anos. Em 1997, propus a Mário Soares e à sua fundação receberem esses arquivos e os de O Tempo e o Modo. Apesar do péssimo estado de conservação, Mário Soares aceitou.

3. Acabo aqui o flash-back. No regresso ao presente (presente do ano passado), eu respondi à ressuscitada Roselyne Chenu que não tinha nada, que me deserdara em vida, como dizia a minha Avó, a favor da Fundação Mário Soares.
Mas palavras não foram escritas, entrou-me pela porta dentro o Nicolau Andresen Leitão (que eu não conhecia) a contar que o Centro Nacional de Cultura também andava à busca de origens, no ano do seu 60º aniversário. E estava intrigado com os anos 70-74, que se sucediam às direcções de Sophia e de Francisco Sousa Tavares e antecediam a de Helena Vaz da Silva. Resultado: tinham-no encarregado de estudar o Congrès e o Congrès em Portugal. Já tinha andado pela Fundação Soares a vasculhar os “meus” arquivos. Queria saber mais coisas. E queria dedicar um dia de 2005 a discutir com os sobrevivente do Congresso (de 18, restamos só 7) e com os beneficiários do Congresso o que fora essa história toda.
Escrevi logo a Roselyne a dar-lhe as boas novas. Depois, eles entenderam-se entre eles. Roselyne Chenu foi justamente convidada a voltar a Portugal. A 21 de Junho, na Fundação Luso-Americana, falaram Guilherme Oliveira Martins, em nome do Centro, Roselyne Chenu, eu e Nicolau Andresen Leitão. Dos antigos membros, depuseram António Alçada Baptista, João Salgueiro, Mário Murteira e Nuno Teotónio Pereira. Dos antigos contemplados José Medeiros Ferreira, José Pacheco Pereira e Manuel de Lucena.
Foi um dia cheio de fantasmas e com o meu fantasma de cabeceira.

4. Durante oito anos, dúzia e meia de portugueses ajudaram revistas e cooperativas, associações de estudantes e estudantes desassociados, investigadores dispersos pelo exílio ou pela clandestinidade, grupos de teatro e uma antologia musical (sim, o primeiro disco da antologia de Lopes Graça e Giacometti foi subsidiado por nós), gentes das mais diversas famílias políticas, a sentirem-se um pouco mais livres e a terem oportunidade de ser mais cultos.
Houve muitas peripécias (delas falarei em próxima crónica) mas não houve nem zangas nem rupturas. Nem entre nós, nem com quem velava e zelava por nós e, num plano discreto, como assistente de Pierre Emmanuel, nos deu os meios e a força de poder ajudar um bocadinho.
A pouco e pouco, recuperei a memória e lembrei-me que foi graças ao Congresso, num encontro organizado em Senanque, numa bela abadia românica, que, conversando com poetas búlgaros e escritores romenos, eu percebi a diferença entre um “sonho mau” (o sonho que então se sonhava em Portugal) e um “pesadelo” (o que então se vivia no Leste europeu). Percebi a diferença entre viver sob um regime autoritário ou sob um regime totalitário.
Um dia escrevi a Roselyne Chenu – foi ela quem agora mo lembrou – que se algum dia duvidasse do sentido da vida dela, pensasse no que fez por Portugal. No dia 21, o Presidente da República de Portugal conferiu-lhe o grau de comendadora da Ordem da Liberdade.
Demorou 40 anos. Mas o passado não perdoa e renasce quando menos se espera. Por muitos motivos, nunca esquecerei o 21 de Junho de 2005.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_07_01_archive.html

«De John Mohune a Jon Whiteley ou de Fritz Lang a Jean-Auguste-Dominique Ingres», 19-VI-2005

1.Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar.
Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.

2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou.
A acção situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contracção de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a acção.
A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe – é o termo – um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia.
Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem.
Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspecto e as maneiras do personagem (o actor é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais.
Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: “Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?” “Há um perigo bem maior”, responde Jeremy, “é ser ele a destruir-me.” No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: “It”s good to have a friend.”
Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.
Mas quem ama Moonfleet como eu amo – e estou cada vez mais acompanhado – nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.

3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por “perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang”. Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, “ditatorial e déspota”, tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete.
Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: “Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?” Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet.
Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.
Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.
Em Janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e actores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que “composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master”. “This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me.”
Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.

4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa.
Até que, postos os feriados de Junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de Junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres.
Na carta dizia-me que “as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet” recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projectada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). “Any chance of seeing you? I hope so very much.”
Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito John Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. “Como os arquitectos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação.”
Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. “A deeply sensuous nature.”
John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_06_01_archive.html

«O fantasma apaixonado», 12-VI-2005.

1. Em 1979, organizei, na Gulbenkian, um ciclo sobre cinema americano dos anos 40. Desse, como doutros ciclos dos anos 70 e 80, a fada-madrinha foi uma das pessoas mais enigmáticas e fascinantes que jamais conheci. Não sei o nome dela e não sei de ninguém que o saiba. Dizia que se chamava e chamavam-na Mary, mas, não sendo ela inglesa, americana ou mesmo remotamente anglo-saxónica, é duvidoso que a tenham baptizado com esse nome. Usava o apelido Meerson, pois teria sido casada com Lazare Meerson (1900-1938), famoso decorador francês de origem russa. Mas é bem possível que tivesse sido tão casada com Meerson como o foi com Henri Langlois (1914-1977), o lendário fundador da Cinemateca Francesa. Muitas vezes a ouvi autodesignar-se como Mme. Langlois, mas, se viveu com Langlois entre 1939 e 1977, não consta que se tenham casado. Sem razão aparente (mas porque é que querem sempre razões para tudo?) guardou toda a vida absoluto segredo sobre as suas origens. Diziam-na russa, diziam-na búlgara, diziam-na finlandesa, diziam-na de um dos países do Báltico. Ela nunca nada revelou e, quando alguns biógrafos de Langlois começaram a querer vasculhar-lhe o passado, enfureceu-se terrivelmente e Deus e algumas pessoas sabem como as fúrias dela eram terríveis. Morreu em 1993, diz-se (quem pode estar certo?) que nonagenária, mas bilhete de identidade, passaporte ou qualquer outro documento de registo civil nunca se lhe conheceu. A mim, essa mulher que me explicou que os russos só invadiram o Afeganistão para descobrir segredos sobre ciências ocultas, sempre me disse que não morreria. “Um jour, je m”envolerais…”
Da morte de Langlois até ter voado de mim (estou, pois, a falar de uma pessoa com setenta e muitos anos, ou oitenta) desenvolvemos uma relação que me é impossível qualificar. Telefonava-me vezes sem conta, altas horas da noite, quase sempre para casa, pois que, para ela, telefones de trabalho (Gulbenkian ou Cinemateca) eram telefones sob escuta dos nossos muitos ignotos e invisíveis inimigos. Se, quando a conheci, era gordíssima e imponentíssima, disseram-me que em nova fora belíssima. “J”etais plus belle que toi”, teria dito um dia a Marlene e tê-lo-ia sido ao tempo em que a lenda pretendia que se passeava por Paris nua, sob um fabuloso casaco de renard argenté. Nesses telefonemas nocturnos, transparecia o “coquettismo” das mulheres que são ou foram muito bonitas e se habituaram a seduzir homens. Tinha uns olhos extraordinários, como só o têm os quase cegos que vêem o que mais ninguém vê (quase cega sempre a conheci). Tinha uma voz de baixo profundo, que facilmente se confundia com a de um homem e dominava, na perfeição, o inglês, o alemão, o francês, o italiano, o russo e muitas mais línguas que nem eu sei (num jantar, uma vez, espantou toda a gente recitando poemas em arménio e os arménios presentes juraram-me que ela o dominava fluentemente).
Por que razão ela me tomou sob sua protecção nunca saberei bem. O nome Gulbenkian (ela teria conhecido Calouste Gulbenkian quando foi marchande d”art) contribuiu fortemente, mas não explicou ou explica tudo. Lia através de mim ou em corpo ou em voz. E em várias alturas, mais complicadas, sem que alguma vez eu lhe tenha feito confidências, dizia-me o que eu precisava de ouvir como se fosse uma Xerazade ou um Tomás de Kempis telecomandados. Uma vez disse-lho. Limitou-se a responder-me: “Je sais. Mary sait tout.”
Soubesse-o ou não (e eu, hoje, acho que, se ela não sabia tudo, sabia muito), o que é certo é que, graças a ela, eu fiz o meu nome como programador. Filme que lhe pedisse (mesmo que a Cinemateca Francesa o não tivesse ou o poder efectivo dela na Cinemateca Francesa já fosse diminuto) era filme que ela me encontrava. No fim do mundo, ou ao virar da esquina.
Há uma expressão que eu acho deliciosa e aprendi há pouco tempo com as minhas netas mais velhas, com a Sofia e com a Mariana: “amizades coloridas”. Se não sabem perguntem, que eu não estou aqui para explicar. Mas acho que a minha relação com Mary Meerson foi uma “amizade colorida” avant-la lettre. Après la lettre, vejo-lhe o olhar renascendo em muitas vidas, ou de dantes ou de depois.

2. É estranho. Eu não vinha para falar de Mary Mersoon, sobre a qual escrevi uma crónica quando ela morreu e co-organizei um catálogo a que chamei O Cinema como Magia.
Se a invoquei, e ao tal ciclo de 79, foi para contar uma história bizarra das muitas entre nós sucedidas. Além de filmes, pedi-lhe cartazes para uma exposição paralela ou coisa que o valha. Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath de John Ford e de The Ghost and Mrs Muir de Joseph L. Mankiewickz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian que, pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles “monstros”? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar do sucedido e ela respondeu-me com a maior naturalidade do mundo: “Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis.”
Assim fiz. De 79 a 91, os cartazes estiveram nas paredes do meu gabinete da Gulbenkian. Em frente de mim (porquê?) já estava o do Ghost, filme que em Portugal se chamou O Fantasma Apaixonado.
Não é tão bonito como o das Vinhas da Ira, com desenho original desse mestre dos nossos neo-realistas que se chamou Benton. Mas nunca resisti ao sorriso de Gene Tierney, tão segura, tão insegura, precisamente por isso. Curiosamente, uma Gene Tierney tingida de louro, quando nunca houve mulher mais morena e mais branca em Hollywood. High-Cheek Bone Beauty. Há tanto de triste e algo de insuspeitado nesse leve sorriso e nesses imensos, insondáveis olhos. Mulher-patchuli. Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje, o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa, só o do Fantasma. Vinte e seis anos (79-05) a viver com ele e com a Mrs. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mo mandou.

3. Esta vida é de facto estranha.
Quando eu vi O Fantasma Apaixonado pela primeira vez tinha 12 anos. E foi no Tivoli dos veludos da Fox. Quem fosse o realizador – Joseph L. Mankiewickz, depois, também, meu cineasta de cabeceira – ignorava completamente. Só me interessava Gene Tierney e, depois de visto o filme, passou-me a interessar Rex Harrison, com quem vivi pela primeira vez.
Gostei. Gostei muito. Mas quão longe estava de adivinhar o que esse filme iria significar para mim, passados os 40 anos, quando o revi no tal ciclo da Gulbenkian e, depois, quando o revi e revi e revi em dezasseis passagens na Cinemateca e mais não sei quantos visionamentos.
Já contei mil vezes, mas, como estou morto por contar, conto outra vez.
Mrs. Muir (Lucy Muir = Gene Tierney) enviuvara há pouco tempo de um Mr. Muir que nunca vemos, mas não era de molde a deixar grandes saudades. Sogra e cunhada em Londres, princípio do século XX, vigiavam a virtude da jovem viúva e da filha dela, de dois anos. O filme começava quando a situação se começava a tornar insuportável e Mrs. Muir, doce mas firmemente, anunciava que ia sair de vez daquela casa para ir para o pé do mar, para o pé do mar. Nem rogos nem ameaças a demoveram. Procurou casa junto ao Mar do Norte como Mar do Norte nunca vi, mas nenhuma casa a convenceu. Até que viu a que queria ver, mas ninguém lhe queria mostrar. A casa estava assombrada pelo fantasma do Capitão Gregg que nela se suicidara. Só que os fantasmas não assustam Mrs. Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele.
Mrs. Muir instala-se na casa com a filha e com a criada. E logo o fantasma começa a visitá-la. “I know you are here”, diz ela. As luzes todas se apagam, começam as trovoadas e os relâmpagos.
Mas começa também, poucochíssimo depois, a história de amor entre o fantasma mais malcriado do mundo e a mulher mais mar do mundo. Debalde o fantasma lhe diz: “I”m here because you believe I”m here.”
Não vou contar o filme todo. Há sempre uma hora em que se acorda dos sonhos. Os fantasmas não são para toda a vida. Quando o percebe, Rex Harrison, pois é dele que se trata, sempre de negro vestido, vem despedir-se dela que dorme. “What you have missed by being born too late to travel the seven seas with me! And what I”ve been missed too? What we both have missed!” Antes recitara Keats, depois dá-lhe um quase beijo.
Mrs. Muir descobrirá depois que o real é bem mais frágil. Fica na casa, pensando sempre que o que aconteceu nunca aconteceu, que nunca houve fantasma algum. Mas o que houve deu sentido a tudo, por ser feito de tão nada.
Depois o tempo passou. Passa sempre. Depois, um dia, o coração de Mrs. Muir deixou de bater. Quando a criada lhe vem trazer o chá cruza-se com o fantasma e com Mrs. Muir, que avançam devagarinho nas brumas.
Como é que diz Keats que o fantasma recita: “I have been half in love with easeful Death… Was it a vision or a waking dream?”
Porque é que as pessoas se apaixonam por fantasmas? Porque é que os fantasmas se apaixonam por pessoas? Perguntá-lo é perguntar “como pode usar amor de entendimento”. Sempre que vejo, no meu cartaz, Rex Harrison mais azul do que negro sumir-se no fundo do colo de Gene Tierney, pergunto-me qual dos dois foi fantasma e como o Andrea Francorum de Stendhal “inter quos possit esse amor”. Lembram-se do que ele respondia a quem se embaraçava com a obscuridade de discursos destes? É melhor não se lembrarem.

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«Pressas e aflições», 5-VI-2005.

1. Conhecem as Varandas de Avô? Assim se chama a um miradouro, que não dista muito da Venda de Galizes da minha solitária adolescência e onde se enxerga uma das mais bonitas vistas sobre o Vale do Alva. Sant”Anna Dionísio, que ainda era professor no Pedro Nunes ao meu tempo de Venda de Galizes, diz, naquele estilo peculiar, que é, para mim, o estilo Guia de Portugal da Biblioteca Nacional de Lisboa, que a “vila (Avô), os montes, as águas, os campos, ficam lá muito fundos, extáticos, graciosos e atraentes na serenidade das coisas que estão longe mas se vêem com perfeição”. Não é mal visto nem é mal dito.
Foi com ele que aprendi a bela palavra enfragado, no caso dedicada ao rio, mas que pelo som a mim mesmo apliquei. Enfragado é um local onde há fragas e, se o Alva passa pelas Varandas muito enfragado, eu cheguei a elas e a ele na mesma condição. Arestas e rasgões. Mas ainda naquela fase boa do vinde cá meu tão certo secretário, e ainda muito, muito longe dos oito adjectivos fatais de Camões para o monte da arábica aspereza. Nada de seco, nada de fero, nada de estéril, nada de inútil, nada de despido, nada de calvo, nada de informe, nada de aborrecido. Ainda a sombra escura clara se faz e o campo reverdece. Estão a perceber porque é que eu me senti enfragado? Se não estão, não se preocupem que também não é para perceber. É mais para sentir. Coisa de sons e não de sentidos. Como me disseram nestes dias: “Para que um segredo não vos devore / é preciso dizê-lo em voz alta ao sol / de um terraço ou de um pátio. / Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.” Enfragado, saboreei o medo com uma descalma leve. Ali, nas Varandas sobre o Alva.

2. Mas o tempo não espera por nós ou nós não esperamos pelo tempo. Um pouco mais acima, a Aldeia das Dez, onde um holandês voador abriu um hotel com o nome de João Brandão (o homem andou por ali) para dar mais vista à vista. Continuando a subir, chega-se ao Santuário da Senhora das Preces, onde, no Domingo do Espírito Santo, se fazia uma romaria célebre.
É um daqueles santuários, como há mil em Portugal, em que, numa série de pequenas ermidas, estão dispostos grupos figurativos dos Passos da Cruz, do Calvário, do Santo Sepulcro, da Ressurreição. Há um realismo tosco nessas figuras, comoventes de ingenuidade pintalgada e de terror mansinho. Entre cedros e carvalhos, o parque não é bem parque como os modelos que o inspiraram, a escadaria nunca se escalou, mas há tanta aflição enfrática, que se percebe muito bem porque é que o povo transformou a Senhora das Preces na Senhora das Pressas, jurando que ela tem mais devotos que outra qualquer. É que uma pressa, por ali, é sempre uma aflição. Por ali? Gostei de saber dessa história da Senhora das Pressas e devagar visitei as onze capelinhas da Serra de Açor que deixa a Estrela a perder de vista.

3. O santuário está a meia encosta do Colcorinho, cume da serra (1242m). Muito mais aflições, sobretudo se houver pressas, esperam quem descer a estrada quase na vertical, no caso de não ter (como eu não tinha) tracção às quatro rodas. Nunca aprendi muito bem a ter os cuidados que recomendo (e gabo) nos outros. A mim, tem-me valido mais a sorte, ou o anjinho da guarda, bem pousado no ombro. E assim cheguei são e salvo cá abaixo.
De Norte para Noroeste. Terra Chã, o outeiro de S. Miguel e, na casa que se diz ter sido do João Brandão que roubava aos ricos para dar aos pobres, umas estátuas de santos, descobertas nos anos 20 por Francisco Franco (o escultor, não o caudilho) e por ele atribuídas a Manuel Pereira, o maior dos nossos escultores de Seiscentos (quiçá de sempre) embora tenha esculpido muito mais por terras de Espanha do que por areias de Portugal, amado por Filipe IV mesmo depois de 1640.
Depois, começam as terras dos xistos mas, do que eu me lembro de ter visto há cinquenta e dois anos, quase não resta traço, como sucedeu ao granito do outro lado do vale. Ou então ficou esse pastiche “mediático”, que é o Piódão, com tudo a fazer de conta, espécie de Portugal dos pequeninos ou de décor de estúdio para figurar em filme como era uma aldeia de xisto, num outrora muito próximo e que, por isso mesmo, faz doer mais. Outro género de aflição, para continuar a correr ao som do meu tema de hoje.
Foi aí que me contaram, enquanto comia um chouriço assado e via as vendas para turistas incautos, que há por ali escola sim senhor. Mas escola de um só aluno – o filho do professor. Quem mo contou não mo contou por mal. Mas enquanto apalpava bonecos desengraçados, fiquei a pensar nesse extremo exemplo do Estado-providência e no duplo emprego do progenitor. Não é preciso ir ao Açor, para saber que há de tudo em Portugal, mas às vezes ajuda.
São Gião não fica muito longe e, se os cartazes da estrada são encomiásticos para o interesse público de Piódão (decretado em 1978, quando se começou a salvar e a perder a aldeia), esse novo destino é hoje grandiloquentemente cognominado Catedral das Beiras.
Tudo vem de uma igreja construída em 1795, nos tempos da Senhora D. Maria I. Só que – como por essa altura, noutras paragens de Portugal, D. Rita Preciosa notou ao marido e pai de Simão Botelho no Amor de Perdição de Camilo – os anos não eram os mesmos no Largo da Estrela ou no Vale do Alva. Aí, ainda se vivia ao gosto de D. João V e das suas muitas flores de murta. Quando, na vizinha e rival Penalva d”Alva, se anunciou a construção de uma nova igreja para substituir a que o terramoto danificara, São Gião teve o último assomo de um lendário orgulho. E edificou-se então essa “catedral” (que se o não é, não deixa de ser um dos maiores templos das Beiras) com mais do que espaço para acolher os 1577 habitantes da povoação. A severa fachada é barroquíssima e, no interior, sobretudo do alto do coro, vale bem a pena ver os 102 painéis atribuídos a Pascoal Parente, um italiano então a residir em Coimbra e ali chamado pelo morgado da povoação. Terá sido ele, também, o autor do grande retábulo do martírio de São Julião, esse que deu na toponímia lugar a Santulhão ou São Gião, e vários há por este país dentro ou por este país fora.
À roda da igreja, sobre o vale e sobre o rio, sobejam hoje algumas bonitas casas de granito, eventuais restos de solares de outrora, muitas ruínas e aquelas monstruosidades do costume, com que se deu cabo de quase tudo. Monstruosidades aliás que estão vazias, com os donos a viverem na Reboleira ou em Felgueiras. Conversei com algumas mulheres de negras vestidas. Sessenta são hoje os habitantes permanentes de São Gião, os últimos que produzem batata, azeite, feijão ou milho.
A igreja (aliás, quase sempre fechada, depois de dois assaltos) parece uma Pirâmide abandonada num horto. Mas ultimamente, disseram-me, alguns estrangeiros têm comprado as poucas casas antigas e têm-se fixado na região. Virá daí alguma esperança? Quando me vinha embora e olhei para trás para ver a igreja, a ponte e o casario branco, pareceu-me aquela terra, ali posta em sossego, ali posta em aflição, uma metáfora poderosa deste país inerme, tão perdido nos tempos como os tempos andam perdidos nele.

4. Quem é esse S. Julião, que deu S. Gião e a quem se presta culto nessa igreja oculta, de talha dourada, madeira acerada e onde no tecto Adão e Eva se passeiam no mesmo plano com a Senhora mai-lo Menino?
Dizem-me que deve ser um mártir de Antioquia que morreu em 309 na perseguição de Diocleciano. Aos 18 anos, a rogos ou ordens dos pais, casou com Basilisa, que converteu. Ambos decidiram manter a virgindade. Basilisa foi martirizada primeiro e Julião deu-lhe sepultura. Depois, padeceu ele muitos martírios até ser degolado, como sucede na pintura de Pascoal Parente, ou do diabo por ele.
Diz-se que foram muito venerados, como outros mártires do Antioquia, na Hispânia visigótica e que dela nos ficou o culto do santo, nas terras ao norte do Mondego.
Mas há muitos mais Juliões e santos. Na Legenda Áurea, de que vos falei um dia, aprendi que Julião vem de Jubilus ou de Jubilianus “aquele que procurou as coisas do alto”. E há muitos S. Juliões, todos com histórias de espantar, como esse que Piero Della Francesca pintou em Sansepolcro, sob os traços de Eros, recortado contra o jaspe do firmamento.
Um deles parece recapitular com requintes a história de Édipo. Com a história dele termino, para explicar tudo ou para não explicar nada.
Julião, em jovem, caçou um veado que, antes de morrer, lhe anunciou que ele seria o matador do seu pai e sua mãe.
Aterrado com a profecia, Julião partiu para muito longe e casou num reino distante. Seus pais, inconsoláveis com o desaparecimento do filho, procuraram-no por toda a parte. Até que, um dia, chegaram ao castelo do filho, que tinha saído. Estava a mulher que muito bem os recebeu e, ao ouvir a história deles, logo percebeu que eram os sogros. Ofereceu-lhes de repouso o leito conjugal, enquanto ela se foi deitar numa enxerga.
Altas horas chegou Julião. Quando viu dois corpos no seu quarto e na sua cama, concluiu que a mulher o traía. “Desembainhou a espada e sem rumor matou-os.” Saiu e deu de caras com a mulher que vinha da missa e lhe contou o sucedido. A profecia do veado realizara-se.
Julião iniciou então uma longa penitência nas margens de um grande rio, recebendo os pobres e sarando os enfermos em albergarias. Já muito velho, uma voz lhe disse que o Senhor aceitara a penitência. Julião “cheio de boas obras” descansou no Senhor.
Pensando bem, S. Gião podia ser o lugar dessa albergaria, e Portugal a casa desse desventurado Édipo, sem esfinge nem incesto.

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«A última sexta-feira», 27-V-2005.

1. De 27 de Maio de 1988 a 27 de Maio de 2005 (nestes dois anos, 27 de Maio calhou a uma sexta-feira), habituei-me ou habituaram-me a ler crónicas minhas nas páginas de um jornal. Primeiro, nos bons tempos de O Independente, que nasceu faz hoje 17 anos e talvez seja eu o único a lembrar-me. Here”s looking at you kid, e o kid é o Miguel Esteves Cardoso, que não vejo há que anos, embora não lhe perca o retrato aos domingos no Diário de Notícias. Entre “casas encantadas” (pois, pois, A Casa Encantada também faz hoje 17 anos) e saques de Roma, por lá andei até Novembro de 2001 ou coisa que o valha, pois sempre fui melhor a datar inícios do que fins. Depois, desde 12 de Julho de 2002 (eu não vos dizia?) aqui no PÚBLICO e já lá vão quase três anos.
Ontem (estou a falar do meu ontem de escritor, e não do vosso ontem de leitores) telefonaram-me a dizer que ninguém sexta toda a vida e que aos 17 anos já tenho tamanho para me vestir de domingueiro. Trocado por miúdos: à sexta-feira deixa de haver “casas encantadas”, J. B. C. e conversas de farrapos. Mas nada se perde. Só se transforma. Conversas destas, encantos destes e gente como eu fica melhor ao domingo, para ler na cama até tarde, para levar para a pesca ou para levar para a caça, conforme as estações, os tempos e os modos. Animal de hábitos que sou, virei-me um bocado na cadeira (de couro), mas não tinha nenhuma razão crisálida para dizer que não.
Nunca gostei de domingos? É bem verdade e já não gostava 50 anos antes de 1988. Nem dos domingos de Carnide nem dos domingos de pastéis de Belém. Nem dos domingos de Paris, que me lembram o desaparecido que sentia comovido os domingos de Paris (as aspas caíram na tipografia), nem dos domingos da Arrábida, com aquela confusão de camionetes e o pó encarnado a esvoaçar. Nem dos domingos engarrafados da Praia Grande, nem dos domingos dos estádios em que o Barrosa falhava penaltis. Mas também não é aos domingos que tenho que escrevinhar coisas quejandas e, para as reler, narcisicamente, sobra-me tempo, meu Eco. Ao princípio irei estranhar, depois vou-me habituar. Mas sinto um nozinho na garganta, assim como se me despedisse. Não há de ser nada.

2. Mas a verdade é que o dia de ontem me foi muito especialmente especial. Devia estar a lua no carneiro, como diz o Alberto, com quem bebi catarinas à beira-rio. Ao menos bebemos vinho com nome de santa, como ele me lembrou, a certa altura, que alguém dizia em tempos que já lá vão. No carneiro ou não, ia alta a lua, essa lua que, só um bocadinho mais baixa, eu tinha acabado de deixar em Veneza, na antevéspera. Há gente que nasceu com o rabo virado para a dita e nesta semana eu senti-me uma delas. Chegou a altura de vos fazer um desenho, daqueles que me ensinaram há pouco tempo a fazer, para perceberem que não ensandeci definitivamente e que tudo isto pode ter mais nexo do que parece, aliterando ou não. Vamos lá a ver se nos entendemos, que, se não, nem no domingo que vem me convidam para a festa e esta é mesmo a minha última sexta-feira.

3. Subitamente, e por razões que agora não vêm ao caso, mandaram-me ir a Veneza no fim-de-semana passado. Se eu vos contasse o que lá fui fazer, ainda mais louco ou ébrio vos pareceria. Por isso, fico-me por uns instantâneos e julgue-os quem não pode experimentá-los.
Nunca me falaram em Veneza sem que eu estremecesse de cima a baixo muito mais do que estremeceu a criada do Tartuffe. Desta vez, medi-me o pulso e não senti nada. Era como se me dissessem que no dia seguinte ia até Vila Franca de Xira. Já estava um bocado preocupado (e outros por mim), preocupado fiquei ainda mais. Mas logo que o táxi castanho largou à desfilada pela lagoa, os fantasmas desapareceram atrás dos postes e renasceu-me a alma nova que tinha metido nem sei bem onde. Depois, o barco moderou a velocidade e, num fim de tarde inacreditavelmente luminoso, desembarquei à porta do Danieli, onde muitas vezes bebera uns copos, mas onde nunca tinha ficado. E fosse pelo Danieli, fosse pelo que fosse, quando saí do hotel a caminho de São Marcos vi coisas que tinha obrigação de ter visto mais vezes, mas que via agora pela primeira vez.
A bem da contenção, fico-me por cinco, que se vai fazendo muito tarde.

4. Reparei que no ângulo sudoeste e no ângulo sudeste do Palácio dos Doges, quero eu dizer no ângulo entre a Margem dos Escravos e a Piazetta e no ângulo entre o Palácio e a Ponte dos Suspiros, os dois capitéis celebram dois dos mais célebres nus da nossa génese. O primeiro mostra-nos Adão e Eva depois de comerem do fruto proibido. Não há serpente, não há deuses. Apenas dois ramos da árvore, um para cada lado, se vão cravar nos sexos de Adão e Eva, simultaneamente os cobrindo e simultaneamente os designando como origem de todo o bem e de todo o mal.
O segundo capitel refere-se a um dos episódios mais obscuros do Antigo Testamento. Noé, após ter bebido em demasia, cai no chão a dormir, quase nu, só com as vergonhas cobertas por um trapo. Os filhos surpreendem o velho em tais preparos. Que pensam ou que concebem? Desnudar o pai, ou seja, retirar o trapo para verem o que este cobre. Por que é que o sexo é a obsessão mais visível do Palácio na fachada fronteira ao mar de que Veneza era sereníssima senhora, é coisa que não sei explicar nem nenhum Ruskin me explicou. Mas são essas as armas que desfralda em todo o sentido da palavra, e a história do pecado da carne começou a escrever-se em pedra no século XIV nesse “meravigliosi spigoli di pietra”.
Depois de reparar no sexo reparei no sangue. Na fachada que dá para a Piazetta, o cor-de-rosa evanescente da fachada e das colunas (o cor-de-rosa mais cor-de-rosa alguma vez alcançado) é interrompido duas vezes em duas colunas, que contrastam com todas as outras por um encarnado fortíssimo. Porquê? Aí mo explicaram. Entre essas duas colunas eram anunciadas as penas de morte decretadas pelo Conselho dos Doges. Junto à morte, detinha-se o rosa e o sangue o substituía, efémero e brutal. Aliás, o mesmo sangue é cor da coluna de um metro que hoje está junto à Igreja de São Marcos, mas, em tempos idos, estava entre a coluna de S. Marcos e a de S. Jorge, frente ao mar. Sobre esse tronco de pedra eram degoladas as vítimas que tinham como última visão o dragão vencido ou o leão alado.
Reparei – e aí mais parei do que reparei – que, perto do Rialto, na Igreja de San Salvador está a Anunciação mais terrível que alguma vez vi, obra célebre de Tiziano, que mil vezes vira em reproduções e só agora vi em carne e osso. Porque se cobre a Virgem com um véu à aproximação de um Arcanjo aterrador, com asas colossais que dominam o quadro enorme? Porquê tanta luz e tanta cor a acompanhar a descida do Espírito Santo rodeado por anjos álacres e pulcros? Ao fundo, no altar-mor da mesma Igreja, a Transfiguração, também de Tiziano, mostra-nos que nenhum dos Apóstolos conseguiu fitar as vestes branquíssimas de Cristo, estabelecendo uma divisão claramente platónica entre o que cega os homens das cavernas (os apóstolos) e o que iguala as Ideias da Luz (Cristo e os profetas).
A quinta coisa em que reparei foi num palácio do Grande Canal, que é dos mais belos e mais ogivados. Ca D”Ario chama-se. O meu guia de ocasião informou-me que estava à venda e que há 50 anos o estava. Porquê? Porque se diz que uma maldição primeva atingirá todos os seus proprietários e até hoje ninguém escapou. Sabem quem foi o último presumível comprador, que chegou a dar sinal, mas que à última hora teve mais medo do que dinheiro? Woody Allen.

5. À noite debrucei-me da janela do meu quarto, num dos últimos pisos do Danieli, e olhei para a água negra cá em baixo, no pequeno canal dos dragões, onde algumas gôndolas jaziam. Em frente, havia uma casa com um belo jardim e, entre as janelas entreabertas, pareceu-me descortinar um vulto que lia de costas viradas para a janela e para mim.
Sem saber porquê, esse choque da luz da janela entreaberta com o escuro da água fechada, esse choque da horizontalidade fronteira com a verticalidade abissal, pareceram-me repetir e recapitular a imagética das fachadas do Palácio dos Doges, os segredos de Tiziano, e continuar a cantar e a contar os cantos eróticos e líricos de fé e de ferro, de sangue e de ouro, de madrepérola e pórfiro que em Veneza se ouvem a cada esquina e em cada rua.
“Senza rumor” dizia, no Senso de Visconti, Franz para Livia, naquele quarto dos Fondamenti Nuovi, onde se abrigavam para as suas tardes de amor. “Senza rumor” voltei a ouvir Veneza agora, ao luar de Maio sobre o terraço do Danieli, ou à cor dos cometas abraçando de rosa e piedade o Palácio dos Doges. Palácio feito também da matéria de que os cometas são feitos ou de que eram feitos, nos contos de fadas os fatos, da cor do vento e da cor das nuvens de princesas enfeitiçadas.
E um dia, enfeitiçado, já estava de novo em Lisboa, como se nada se tivesse passado e como se não tivesse estado a fazer de Caronte, à proa de uma gôndola entre os dragões de Carpaccio e os anjos músicos do Bellini de San Zaccaria. Esta é a vida de hoje? Não, esta foi a minha vida de ontem, o dia dos impossíveis acontecidos.

Até domingo, 5 de Junho, dia dos anos da Tia Zina.

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«Os meus sete papas (II)», 20-V-2005.

1.Como alguns se lembrarão, estava perto do Taj Mahal quando, tarde e a más horas, soube da morte de João Paulo I, por tão pouco tempo meu quinto Papa.
De lá segui para as Pirâmides e para o Egipto, mas não foi entre faraós que soube do Papa posto em vez do Papa morto. Já tinha regressado à pátria, findo o meu mês de orientes, quando apareceu fumo branco por Karol Wojtyla, que, como o seu efémero predecessor, escolheu dois nomes e os mesmos dois nomes: João Paulo II. Tinha 58 anos e era o mais novo Papa desde 1846 e desde a eleição de Pio IX com 54 anos. Esse Pio IX que morrera cem anos antes da eleição de João Paulo II (a 7 de Fevereiro de 1878) e fora o pontífice de mais longo reinado na história da Igreja (32 anos), se não contar a incerta duração do papado de S. Pedro. João Paulo II, que reinaria 27 anos, seguiu-os de perto.
Mas, em 1978, a grande novidade não foi a “tenra” idade do novo Papa, mas a sua nacionalidade. Pela primeira vez, desde 1523, ou seja, durante 455 anos, o Papa não era italiano e pela primeira vez, em quase dois mil anos de Igreja, o Papa era polaco. Com Wojtyla acabou uma era, que, em categorias adaptadas da história geral para a história da Igreja por Cristiani, no monumental Tu Es Petrus, correspondem à Idade Moderna (1447-1870) e à Idade Contemporânea (1870-1978). Desde o fim do Cisma do Ocidente até ao “ano dos três papas”, dos 55 pontífices que se sentaram no trono de S. Pedro durante cerca de 540 anos, apenas dois não foram italianos: o aragonês Calisto III (Papa de 1455 a 1458, que, apesar das suas origens, gerou os italianíssimos Borgia) e o holandês Adriano VI, o tal que pontificou entre 1522 e 1523 e que tanto contrastou com os Medici que o precederam e lhe sucederam (Leão X e Clemente VII) em desgosto pelas artes e pelos ofícios. Mas isso já são outras conversas, pois que nenhum deles foi Papa das minhas vidas, embora nos renascentistas me tenha ficado muito da melhor parte delas. Das outras e desta.

2. “O ano dos três papas” (Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II) foi expressão corrente para o ano de 1978.
Às vezes, penso em como teria vivido esse ano um amadíssimo amigo meu, poeta de 35 Poemas, que partiu deste mundo e destes papas em 1968, dez anos antes do ano trino. Digo-o porque, em 1963, quando morreu João XXIII, ele viveu premonitoriamente a febre papal que em 78 já subira uns pontinhos e em 2005 entrou no delírio a que se assistiu.
Foi ele o primeiro a inventar a expressão “totopapa”, enviando-me, e a outros amigos comuns, antes e durante o conclave, listas de probabilidades com os nomes que os eleitos escolheriam, caso viessem a ser os contemplados.
Dentre os inúmeros cartões rectangulares que me mandou, escritos a tinta encarnada, copiei estes:
Probabilidades (Flos Florum)
1 – Siri (Pio XIII, de que Deus nos guarde)
2 – Montini (Pio XIII, João XXIV ou Leão XIV que: vá lá com Deus)
3 – Lercaro (João XXIV – Deus queira)
4 – Confalonieri (João XXIV, Bento XVI ou Clemente XV, que talvez Deus queira)
Hipóteses desvairadas más
1 – Ottaviani (Alexandre IX, Calisto IV, Anastácio V ou Júlio IV)
2 – Larraona (Anastácio V)
3 – Marella (Bonifácio X)
4 – Cerejeira (Urbano IX)
Na altura, todos nos ríamos com estes totopapas, que ele corrigia, emendava e voltava a enviar. Mas a realidade excede sempre a ficção: tanto na morte de João Paulo II, como na eleição de Bento XVI, televisões e jornais ultrapassaram em excentricidade e delírio o meu amigo das “profundidades intactas”.
Muitos dos cardeais já nem sei quem são, como esse Lercaro que, pelos vistos, era o favorito dele. Não previu nenhum Paulo VI, mas previu um Bento XVI, que seria – se tivesse sido – o cardeal Confalonieri, “que talvez Deus queira”.
Em 1963, no interior de círculos muito restritos e – vá lá – muito especiais, vivia-se assim a eleição de um papa, guardando segredo para os não iniciados que já suspeitavam da nossa sanidade mental, mesmo sem saberem destes desvarios. Quem nos diria – quem me diria? – que 42 anos depois, milhões viveriam momentos desses em delírio ainda maior, imaginando papas hindus, argentinos, chineses e até (como sempre) portugueses?
Tudo – tamanha mudança! – talvez se deva a esse Papa polaco que, entre 1978 e 2005, fez mais pelo pope system do que todos os seus antecessores reunidos. E volto a 1978.

3. Estou a começar a dizer mal de João Paulo II, ou, como alguns já lhe chamam, de S. João Paulo Magnus? Não estou.
Quando foi do Jubileu dele, escrevi, neste mesmo jornal, um artigo em que disse o que pensava e penso dele, exaltando sobretudo o homem da fé.
Escrevi então e mantenho: “Não é o “Papa da minha vida”, no sentido em que o foram, dos que conheci, João XXIII ou João Paulo I. Não é o Papa que me dê mais esperança ou que eu ame mais do que os outros. Mas tudo o que me separa dele de nada conta quando o vejo – sobretudo nos últimos anos – dar um tamanho testemunho que só consigo explicar pelo inexplicável mistério da Fé.”
Acima citei a idade com que foi entronizado. Mas parecia muito mais novo, respirando saúde física por todos os poros, o que muitos atribuíam a um passado de desportista. Três anos depois – apenas três anos dessa imagem pletórica – o atentado da Praça de São Pedro fez esse Papa de 60 anos envelhecer 20 em poucos meses. De então para cá, a pujança original quase que se esqueceu e o “atleta” deu lugar a um velhinho, atacado por mil doenças, até, no fim, mal se conseguir mexer ou falar.
Alguns lhe censuraram – velada ou abertamente – o lugar que deu, na sua própria biografia, ao dia 13 de Maio de 1981, em que quase se realizou a sarcástica profecia de Buñuel no filme La Voie Lactée. Mas não é muito fácil compreender como é que se deu tal mudança num homem. Não é a questão da sobrevivência, pois que outros têm recuperado de coisas ainda piores. É a consciência, não proclamada, mas crescentemente interiorizada, de que a sua salvação teve e tem um sentido e que esse sentido só podia ser desvelado com a crescente transfiguração do corpo quebrado num corpo oferecido. Muito e muito se há-de escrever – pressinto-o – sobre os vários sentidos a dar a essa maceração. Por um lado, há a “papolatria” ou os riscos dela, tão temida nos anos 60 e tão escancaradamente recuperada nesta viragem de séculos. Mas reduzir à papolatria o calvário de João Paulo II é perder a dimensão fundamental dele. Falou-se do seu imenso carisma, do seu imenso magnetismo. Que querem dizer essas palavras? Quem saiba que explique e João Paulo II nunca explicou. Acreditou, não só com toda a sua alma (expressão já de si incompreensível), mas com todo o seu corpo e, como só este lhe podia ser imagem, fez dele o grande plano para um mistério insondável.
Por agora – e por mais algum tempo – se falará ainda e muito do Papa que venceu o comunismo, sob o qual viveu desde os 25 anos. Mas não faltam nos textos papais – antes e depois da queda do Muro – advertências ainda mais graves contra a sociedade permissiva e libertária que era, aparentemente, a grande inimiga dos chamados “socialismos reais”.
Qual o significado da sua presença junto a Fidel em Cuba, tão estranho, por parte de um, como por parte de outro? Qual o sentido das suas mil viagens? Qual o sentido dos “estádios cheios e das igrejas vazias”? Qual o sentido do seu altivo moralismo? Porque o aplaudiam milhões de jovens que depois não fundavam famílias de 14 filhos, como nos tempos de Maria Teresa da Áustria, ou nem sequer se precipitavam para os ter, como nos tempos da geração dele?
Quanto mais medito na acção deste Papa, mais ela me parece paradoxal, mas de um paradoxo que não desafia a razão, antes a busca. Por isso, grande parte do mistério de João Paulo II só será percebido com a passagem do tempo e com os pontificados que se seguirem ao deste Papa tão tirolês quanto carpático ou, se se preferir, tão terra a terra, como céu a céu.

4. Sabe-se como foi recebida a eleição de Bento XVI, conhecem-se os juízos que já se fizeram. Mas não se tem reparado muito (ou então sou eu que tenho andado muito distraído) que ao turbilhão de Abril (velório e exéquias de João Paulo II, conclave, etc.) se seguiu um estranho e agudo silêncio. Ouve-se Bach no Vaticano (talvez pela primeira vez).
Perguntam-me o que penso. Pensei mal, quando pensei depressa e me vieram dizer que Ratzinger era o novo Papa. Agora espero para pensar. Bento XVI já não é Ratzinger. É o meu sétimo Papa. Seja minha a solidão deste silêncio, como escreveu o poeta dos 35 Poemas, e dos trinta e cinco cardeais.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_05_01_archive.html

«Os meus sete papas (1)», 13-V-2005.

1. Agora que isto acalmou um bom bocado, quer em matéria de papas quer em matéria de vigílias, posso dar-me ao luxo de desfiar, nos meus romanizados rosários, contas dos papas da minha vida e de os relembrar um a um, entre arminhos e solidéus, sédias gestatórias ou detidas.
Setenta anos, sete papas. Muitos anos? Não há dúvida. Muitos papas? Assim agora não me parece ou me aparece, mas a uma média de dez anos por papa, pode ser que as aparências iludam. Embora eu tenha vivido o terceiro pontificado mais longo de que a Igreja conserva memória (João Paulo II) e um dos pontificados mais curtos dos últimos sete séculos (João Paulo I).

2. A bem dizer, o meu primeiro Papa Papa de mim não foi, embora o dr. Freud, que morreu sete meses e dezasseis dias depois dele, me tenha querido ensinar, sem grande resultado, que foi o Papa de que o meu inconsciente mais ouviu falar.
Refiro-me a Pio XI, o Papa Ratti, que reinava em Roma quando eu nasci e morreu, três dias depois de eu fazer quatro anos, a 10 de Fevereiro de 1939, aos 81 anos. Aos quatro anos, alguém se lembra de papas? Acreditem-me ou não, se não me lembro dele, lembro-me muito bem (vá-se lá saber porquê) do dia da morte dele.
Era à hora de almoço. Eu estava em casa de uns tios postiços que moravam no mesmo prédio do que eu, no segundo andar que ficava por baixo da casa da minha avó. Na casa de jantar, havia uma telefonia, dessas com ponteiro, olho luminoso verde e lãzinha branca a aconchegar os baixos. E foi da dita, ou na dita, que deram a notícia da morte do Papa. Não devo ter prestado atenção, pois o que recordo é a voz acaciana do meu velho tio (com idade para ser meu avô) a dizer-me solenemente: “Morreu o Santo Padre.” Talvez tenha ficado confundido com a ideia de os santos morrerem. Talvez não associasse padres a santos, de tanto ouvir dizer que os padres ralhavam. Talvez outra razão qualquer. Mas a morte de Pio XI chegou-me em directo. Mais tarde, já grandinho ou já velhote, o Papa que queria que o futuro o conhecesse como “o Papa da Acção Católica”, o papa da Mit Brennender Sorge e da Non Abbiamo Bisogno, o Papa que “tarde, demasiado tarde na vida”, descobriu que as ameaças à Igreja não vinham só de um lado, e que as do lado oposto não eram menos fortes, esse Papa, Pio XI, dizia eu, olhei-o sempre com particular afecto. A paz de Cristo no Reino de Cristo. Seis meses depois da morte dele, findo um pontificado de dezassete anos (1922-1939) começou a guerra do diabo.

3. Não me lembro de ninguém me ter dito que a 2 de Março desse mesmo ano, ao fim de três escrutínios e no primeiro dia de conclave (coisa que há trezentos anos não acontecia), o cardeal Pocelli, que nesse mesmo dia completava 63 anos, fora eleito e tomara o nome de Pio XII.
As minhas primeiras imagens dele, ascético e severo, remontam aos dias em que Roma deixou de ser cidade aberta e houve igrejas bombardeadas. Pio XII deixou então o Vaticano para consolar os feridos e chorar os mortos. Quando a guerra acabou, gregos e troianos louvaram o Pastor Angelicus e a sua acção em favor da paz. Em 1950, ex cathedra, num Ano Santo a que só não fui pela maldição de uma bruxa, proclamou o Dogma da Assunção de Maria e, aos 15 anos, extasiei-me, mais do que me interroguei, com essa solene afirmação da infalibilidade papal, a primeira (e a única) desde os tempos de Pio IX.
Depois, ele foi o Papa dos meus anos de brasa, os anos da Acção Católica. Formei-me com a Divino Afflante Spiritu, que relançou os estudos bíblicos, ou com a Mediator Dei sobre a renovação da liturgia. Morreu, diz-se, ouvindo a Sétima Sinfonia de Beethoven, que amava mais do que as outras e Jorge de Sena dedicou-lhe um belíssimo poema na Fidelidade: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo / mesmo no mal que consentis que eu faça / por ser-Vos indiferente, ou não ser mal / ou ser convosco um bem que eu não conheço.” Foi a 9 de Outubro de 1958 e soube da notícia no mesmo dia em que soube que ia ser pai pela primeira vez. Para mim, morrera mais do que o meu primeiro Papa. Morrera o meu único Papa. O Papa por antonomásia.

4. Foi assim com algum escândalo (obviamente, o escândalo admissível num crente então fiel e obediente à Igreja) que, a 28 de Outubro, soube que fora eleito Papa o cardeal Roncalli, quase a completar 77 anos, ou seja, muito mais perto das idades com que morreram Pio XI (81) e Pio XII (82) do que das idades com que tinham sido eleitos, em papados sensivelmente com a mesma duração.
Um amigo meu deu voz ao que eu sentia: “Os cardeais terão mesmo ouvido o Espírito Santo ao escolherem um Papa de transição?” (era a explicação mais correcta para a surpresa da escolha: após dois pontificados longos e fortes, um pontificado breve que servisse para pensar no futuro).
A primeira surpresa veio com a escolha do nome de João XXIII, recuperado a um anti-Papa de 1410 a 1415 e que ninguém usara mais desde o século XV. Depois vieram todas, todas as surpresas desse papado inacreditável: a convocação do Concílio, a inauguração do Concílio, a Mater et Magistra a Pacem in Terris. O bom Papa João. Repararam bem quão estranho é chamar bom a um Papa? Mas foi com esse cognome que ele ficou, tão amado pelos não crentes como pelos crentes ou mais ainda pelos primeiros do que por muitos segundos. Vivi, sob ele, os mais exultantes anos do meu catolicismo. Não chegaram a ser cinco. João XXIII morreu a 3 de Junho de 1963, aos 81 anos.

5. Já quando Pio XII morreu, eles haviam sido os mais “papabile”. Refiro-me aos cardeais Alfredo Ottaviani e Giovanni Montini. O primeiro era chefe do Santo Ofício e acusavam-no de reaccionarismo. O segundo, arcebispo de Milão, com fama de homem aberto ao novo e ao moderno. “Cantemos ao Senhor um Cântico novo.”
Os dois voltaram a ser falados em 1963. O que eu rezei para um Papa chamado Montini! E ele chegou, sob o nome de Paulo VI, a 21 de Junho, com 65 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida e eu tinha apenas 28 anos! E o nome do Papa era o nome do Apóstolo das Gentes.
Poucos meses depois, já se falava de “fundo Roncalli, forma Pacelli”, contrastando a rigidez do novo Papa com a bonomia do seu antecessor. Mas o Concílio continuava, começavam as viagens papais (a histórica peregrinação à Terra Santa em Janeiro de 1964) e foi a continuidade muito mais que a ruptura que eu li na encíclica Ecclesiam Suam de Agosto de 1964. Lembro-me que o meu elogio ao texto papal, nas páginas de O Tempo e o Modo, me valeu uma resposta zangada de um amigo ex-católico, então muito mais à esquerda do que eu. Ele, que, agora muito mais à direita, manda para braços anglicanos todos os “protestantes” (mesmo os mais silenciosos) à eleição de Ratzinger, acusava-me então de poetizar e lembrava-me que ao contrário do que dizia o alemão Novalis (compatriota de Ratzinger) o mais poético podia não ser o mais verdadeiro.
Paulo VI na ONU, em 1965. Mas, bruscamente, fez há muito pouco tempo trinta e oito anos, Paulo VI em Fátima, recebido por Salazar. Foi a única vez que vi um Papa. Foi o único Papa que eu vi. Não em Fátima, mas junto ao Mosteiro da Batalha, quando de Fátima ele regressava em carro aberto, olhos imensamente azuis, como nunca até esse dia eu os supusera.
Por esses anos, por esses tempos, mudou muito a imagem pretérita de Pio XII, quando os silêncios do Vaticano perante a Alemanha nazi começaram a ser muito falados. Pio XII devia ter falado? Paulo VI devia ter recusado vir a Portugal? Essa questão – ou essas questões – ainda hoje as não resolvi dentro de mim. Se os olharmos como chefes institucionais (e a Igreja é uma instituição), eles defenderam-na como a deviam ter defendido, sem atrevimentos inauditos e sem riscos temerários para a unidade que lhes cabia preservar. Mas se os olharmos como pastores do povo de Deus (e a Igreja é o povo de Deus) por que temeram se o próprio Cristo garantiu a Pedro que as portas do Inferno nunca prevaleceriam contra as da Igreja?
E foi no tempo do Papa que eu mais “elegi” que eu cheguei à conclusão que o sumo pontífice não podia ser um modernizador mas um contemporizador, não podia ser uma Antígona mas um Creonte (para recuperar uma imagem antiga). Podia escandalizar intelectuais impacientes como eu, mas não mansos ou feros pobres de espírito.
Em 68, com a encíclica Humanae Vitae, Paulo VI enfrentou de peito aberto a revolução sexual nesse ano triunfante. Católicos insurgiram-se por todo o mundo, numa contestação inédita. Quem mudará?
Eu, por certo, mudei, nesses últimos dez anos do pontificado de Paulo VI. Octogesima Adveniens? Mas 80 anos depois da Rerum Novarum, onde estavam as coisas novas? Onde estão hoje, em que a Humanae Vitae é menos contestada do que os seus contestatários de 68?
Talvez por isso esse Papa seja, na minha memória, o mais amargurado e o mais torturado dos papas da minha vida. Por que é que pensar nele me faz pensar na morte?

6. Estava em casa diante da televisão, quando, em Agosto de 1978, pouco depois da morte de Paulo VI, aos 81 anos e com quinze de pontificado, nos foi anunciado novo magnum gaudium. Contra todas as previsões, apareceu-me como Papa João Paulo I, Albino Luciani, patriarca de Veneza (como João XXIII) aos 65 anos. Nunca me esquecerei da alegria – infantil ou angélica – com que surgiu à varanda e com que deu a primeira bênção. Foi o primeiro Papa a usar dois nomes, em dupla homenagem aos seus mais imediatos antecessores.
À época escrevia crónicas no Diário de Notícias. E o meu texto sobre a eleição de João Paulo I foi tão delirante que Mário Mesquita (à época director do jornal) se espantou com a minha inabalável fé (fé de um ex-católico) no Espírito Santo, que escolhera para Papa o papa do Pinocchio.
Depois fui até aos Japões e pensei mais em budistas, à Sylvia Sidney, do que em papas. Já no regresso, no aeroporto de Nova Deli, vindo do Taj-Mahal, folheei um jornal. Numa página interior, em corpo pequeno, falava-se da morte do Papa. “Meu Deus” – pensei eu – “como este jornal é antigo, o Papa já morreu há quase dois meses.” Quando li a noticia, percebi. Quem morrera a 28 de Setembro, depois de um pontificado de 34 dias, fora esse mesmo João Paulo I, de que eu esperava nem sei bem o quê, mas sei quanto.
Nunca acreditei na tese absurda do assassinato. Mas acredito que Deus, às vezes, atravessa muito depressa a vida dos homens.(continua)

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_05_01_archive.html

«Alfreda e os túneis», 6-V-2005.

1. “A Alfreda precisa de mim na cama dela.” Esta simples frase – em post scriptum justificativo para uma nova falta desta coluna a 29 de Abril – escandalizou muito boa gente, ao que parece. Dito isto, logo assento que é bom guardar o sentido das proporções. Boa gente, talvez fosse ou talvez seja. Muito boa gente não foi certamente, que nem as massas me lêem nem eu escrevo para as massas. Digamos que foi uma historieta, com peso mas sem consequências.
Mas, de facto, faltei porque a Alfreda precisava de mim na cama dela. Só que cada um faz a cama como nela se há-de deitar e a cama da Alfreda era estreita demais para dois. Que culpa tenho eu que quem ouve falar em cama se ponha logo a acamar? E se a Alfreda fosse um bebé que precisasse de mim para lhe dar a mão e lhe tirar os medos da noite? E se a Alfreda fosse uma velha que precisasse de mim para me olhar nos olhos, acabada de morrer? A minha ausência, de que tão mal pensaram, pode-se ter devido a desvelos avoengos ou a piedades finais. Que a mente costumeira não conclua, sobretudo quando não conhece a Alfreda e nada pode saber das razões que a levaram a querer-me na cama dela.

2. Para defesa da Alfreda – mais do que para minha defesa, que este é um mundo cão e um mundo macho, como não se cansa de dizer Inês Pedrosa – sou obrigado a explicar que a dita, não sendo de berço nem muito menos anciã, estava entre lá e cá ou mais lá do que cá. Ou seja, o leito era leito de agonia. Um dia o jardineiro viu-a, muita pálida, sentar-se no banco verde do jardim. Depois, caiu para o lado devagar.
Umas horas depois – se não foi assim foi parecido – entrou em coma. Antes chamou algumas pessoas que ela amara ou que a tinham amado. Mandou-lhes dizer que precisava delas, junto à cama dela, para onde a levaram após o acidente. Uma dessas pessoas fui eu. Acham que não devia ter ido? Acham que, a pretexto de uma crónica para o PÚBLICO, devia ter ficado em Lisboa e tê-la deixado só à hora de morrer? Não me têm em tão má conta, pois não?
E assim nos juntámos todos no quarto da Alfreda, junto à cama da Alfreda. Houve um padre que disse “com algum desalento” que “se alguma coisa não se pode ensinar é a sabedoria”. Alfreda concordou e acrescentou: “Nem o prazer.” Aquela associação surpreendeu-me, até porque nunca tinha pensado quanto era exacta e quanto nunca o prazer se ensina nunca. Depois, eles calaram-se, segundo Agustina porque temiam ter ido longe demais. Segundo mim, essa referência ao prazer foi a sua derradeira palavra.
O padre deu-lhe a extrema-unção e tinha lágrimas nos olhos, lágrimas que ninguém viu porque ele estava no lado mais escuro do quarto. Voltando a Agustina: “A luz do quarto era de um azul opaco e ela parecia irreal, como a Branca de Neve no seu leito à espera de um beijo de amor.” Um beijo não lhe dei, mas fiz-lhe uma festa desajeitada na mão, mão que ela tirara para fora dos lençóis, talvez exactamente para essa festa e talvez para que essa festa fosse assim.
Depois, olhei os outros homens e tive a certeza que todos a tinham amado, sem que ela se apercebesse disso. Éramos os espaços em branco dela. Pouco depois, entrou em coma.

3. Hoje, as pessoas nascem e morrem quase sempre sozinhas, ou rodeadas por profissionais. Mas é costume recente. Não é preciso ir ao Louvre ver La Mort de Sardanapale de Delacroix, La Mort du Père de Greuze, ou as muitas mortes reais documentadas para a História. Não é preciso ir a qualquer outro museu ver os Nascimentos da Virgem, com dezenas de aias, e a celha com água quente para o banho.
Ainda quando eu nasci, ainda dez anos depois de eu ter nascido (ou mais) o quarto da minha mãe se enchia de cunhadas e amigas, rodeando e ajudando a parteira que ia a casa, até ao momento de se ouvirem os primeiros choros. Só nessa altura se ia chamar o Pai, pois que, até ao parto, o quarto conjugal era um espaço feminino, um reino de mulheres solitárias na dor, no ciúme ou na alegria. Entrava-se neste mundo, consoante as hierarquias, em cerimonial e etiquetas, regidos por rigorosas normas.
Entrava-se e saía-se. Morrer sozinho era a última das desgraças, para os que não podiam esperar mais do que prisão ou hospital. Os outros eram acompanhados pela família (no sentido mais vasto da palavra) que os confortava e, em casos de maior fé, lhes dava recados para serem transmitidos a mortos mais antigos. “Não te esqueças de dizer à tia B… que se continua a fazer a compota de alperce exactamente como ela ensinou.” “E diz à tia C… que ainda anteontem consegui fazer a paciência da rainha e não fiz batota.” Não inventei recados destes. Ouvi-os de quem os ouviu, nessas noites de agonia em que ninguém se deitava. Depois – se era a dona da casa quem morria – apagava-se o fogão da cozinha, apagava-se o lume. Era o lar que se apagava.
Lembrei-me disto tudo, durante a agonia da Alfreda, quando a irmã dela, essa tão branca Noémia de olhos tão claramente azuis, tanto mandava sair do quarto os circunstantes que mostravam pouco respeito, como os chamava do corredor, porque agora é que lhe parecia que ia ser.

4. O que é o estado de coma? Os médicos – disseram-me – não sabem muita coisa sobre ele. O cérebro pode estar ileso e com funções perfeitamente normais. Só os nervos estão paralisados como pelo efeito dum veneno. É certo que Alfreda não tomou veneno nenhum, nem foi mordida por nenhuma mamba negra, como protestou a irmã e com bastante razão.
Mas a simples ideia de uma pessoa estar meses ou anos com funções normais e nervos paralisados é mais terrífica do que a concepção prevalecente que o moribundo já de nada se apercebe e nada ouve, vê, cheira ou sente. Essa imagem de uma pessoa lúcida e paralisada guardo-a, no máximo do horror, da Thérèse Raquin de Zola, que li quando ainda não se pensa na morte. Farta de aturar o marido e a sogra, Thérèse mai-lo amante decidem dar cabo deles. Só tiveram que acabar com um. A velha teve tal choque ao ver o crime que ficou cega, muda e paralítica. Os assassinos decidiram deixá-la assim. Não podia testemunhar e vingavam-se melhor.
Ninguém suspeitou de crime. Passado o conveniente período de nojo, Thérèse e o cúmplice casaram-se. E toda a gente gabava “a santa da rapariga”, que tratava com tanto zelo da ex-sogra, como se mãe dela fora. E a velha Mme. Raquin, a única que sabia tudo, tinha que ouvir impávida esses elogios, ver o casal de assassinos sorrir docemente e deixar que, todos os dias, a deitassem, levantassem e sentassem.
A Alfreda sofreria algo de semelhante no coma em que caíra? Como posso eu saber, como podemos saber? Também há quem diga que a pessoa se sente como num fundo de um túnel. Para outros, essa imagem do túnel – e da luz ao fundo dele – é a reminiscência do momento do nascimento, recuperada à hora da morte.
Agustina em A Alma dos Ricos – e embora seja natural que não tenham percebido, não tenho estado a falar doutra coisa, doutro livro e doutro filme – chamou ao último capítulo Para que saibam o que se passou no túnel.
E diz: “O estado de coma simplificou tanto a vida de Alfreda que o tempo deixou de existir. A infância fazia parte da juventude e esta da idade adulta. Tudo era tão claro e interessante, fora de qualquer complexidade, que o prazer de decifrar todas as coisas invadia todo os seu ser. Um ser vivo e resplandecente, à parte dos outros.” Fala do “dilúvio imparável do tempo. Tudo em ligeira confusão, em brando passo, o medo e as intenções maliciosas eram-lhe extraídas como se extrai um dente podre. O mal não existia, só uma passagem de vidas, sem fraude e sem destino”.
Essa visão é quase uma visão de céu, mas não é compartilhada por todos. Havia quem visse nela o Mal. E havia quem dissesse “que ela tomara um caminho tão solitário como o das estrelas e não havia uma fórmula para o descrever e compreender”.
Seja como for, a mulher que me chamou para a sua cama a 29 de Abril “era uma mulher fora de série” e tudo o que me aconteceu, nessa semana em que andei perdido, foi bastante fora de série.
Mas estou a falar da Alfreda. E, como a Agustina também diz, “os homens sempre inventam quando se trata das mulheres. Uns mais, outros menos”.
Eu, que nem sequer inventei uma cama, eu que nem sequer inventei uma coma, andei a percorrer um túnel sem achar luz no termo dele.
Do que nele encontrei, é muito cedo para falar. Mas de vez em quando sabe bem divagar ao fazer desta, sabendo que ao correr da pena se aperta o coração.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_05_01_archive.html

«O grisú e os canibais (II)», 15-IV-2005.

1. A 1 de Abril, prometi eu que na “próxima sexta-feira” contaria mais histórias de Júlio Verne, passando dos grisús aos canibais (PÚBLICO, 1 de Abril de 2005). Promessas de 1 de Abril, dia das mentiras? Não eram, não, embora poucos me acreditem e ainda menos me creditem, o que, às vezes, dói o seu bocado.
Acontece que tropecei num regresso de Londres e fiquei impróprio para consumo durante a tal “próxima sexta-feira” e as feiras mais vizinhas dela. Donde, dois azares, já que dos ditos se diz que nunca um vem sozinho. Faltei à promessa e faltei ao PÚBLICO (qualquer dia sou demitido por absentismo); fiquei a meio da história, o que é sempre a pior coisa que pode acontecer a um contador delas.
Em semana de tantos acontecimentos, cheguei a ponderar esquecer Verne e os canibais e passar a outros temas mais candentes. Ganhou o meu lado Xerazade. O que começou tem de acabar. Esqueçam (como eu vou tentar esquecer) a semana de 4 a 9 de Abril. A “próxima sexta-feira” transfiram-na, a título póstumo, de 8 para 15. E ela aí está, se a minha Futura não se me encolher numa nega.

2. Se bem se lembram, a 1 de Abril eu resumi As Índias Negras, primeiro romance de Verne que me leram e eu li, como então expliquei.
Pela voz da mesma Luzinha e na mesma escura sala, que dava para o pátio das traseiras do Lar Educativo João de Deus, ali na Rua Viriato, às Índias Negras sucedeu-se Em Frente da Bandeira, que não me deixou tão funda recordação. Ao que julgo recordar, era a história de um cientista dementado, de nome Thomaz Roque, que de mal com os homens e de mal com a pátria (a França) dedicava a vida ao fabrico de um explosivo potentíssimo, premonição verniana da bomba atómica. Era o “fulgurador Roque” e desse nome nunca mais me esqueci.
Já não sei porque bulas o sábio erguia o seu laboratório num vulcão das Bermudas, entre piratas e outras gentes sequiosas de vingança. A notícia do perigo chegou às grandes potências e a França aparelhou uma frota para a captura do louco e seus acólitos. Demasiado tarde! O fulgurador Roque estava pronto a servir e o sábio saboreava a hora suprema em que mandaria para as profundezas a armada punitiva.
Só que Roque podia estar louco, mas era francês. E, assim, o final era apoteoticamente chauvinista. Quando o cientista ia a dar ordem fatal, viu na sua frente a bandeira tricolor. “Em frente da bandeira”, vacilou. Não estava tão inveterado no crime que bombardeasse o seu próprio país! Atirando ao chão o frasco do explosivo, esmigalhou-o com o tacão. Rebentou a ilha e todos quantos a habitavam, mas salvou-se a França e a humanidade.
Mas se, mesmo para os meus 9 anos, tal acesso de nacionalismo me pareceu pouco convincente, o gosto por Verne não abrandou. Foi nesse ano que devorei quase toda a obra dele. Percorri, o paralelo 37 com os filhos do Capitão Grant, reencontrei o Capitão Nemo na lagoa subterrânea de A Ilha Mysteriosa e as mesmas lágrimas que salvaram de cegueira o correio do czar, me fizeram amar acima de todos Miguel Strogoff. Acima de todos? Minto. Mais ainda que ele, amei outro russo, em que o correio era pombo e se chamou Mathias Sandorf. Lá fora, na varanda da Vila Raul, zangavam-se os crescidos, no último Verão em que a família, em acepção mais lata, coabitou nessa casa. No meu quarto, a que me acantonava o ritual da sesta, terrificavam-me tanto essas iras genéticas como a fuga de Sandorf, desescalando muralhas tão íngremes que era preciso ser ave ou demónio para dali escapar.
Mas os meus favoritos (porquê o mas?) chamaram-se O Castelo dos Cárpatos e a Galera Chancellor. No Castelo dos Cárpatos nasceu o cinema como arte necrófila e como arte audiovisual. Na Galera Chancellor revelou-se o oculto Verne quase tão preverso como o gajeiro da Nau Catrineta. Como vos prometi histórias de canibais, soltem-se elas.

3. Chancellor (O Chancellor, apesar de ser galera) era o nome do bonito barco de novecentas toneladas, pertencente à poderosa casa Leard & Irmãos, que, a 27 de Setembro de 1869, largou da Carolina do Sul (região obcecante para Verne) com destino a Liverpool.
Era um navio “forrado e cavilhado de cobre, tabuado exterior de teka e com mastros reais, excepto o da gata, de ferro e o aparelho fixo de arame”.
A Veritas, ao que presumo, publicação de autoridade na matéria, classificou-o como de primeira classe. Ao sair da barra, arreou o pavilhão britânico “mas nenhum homem do mar desconheceria a sua nacionalidade. É realmente o que parece, inglês desde a linha de flutuação até ao topo dos mastros”.
A bordo, sete passageiros, dezoito nautas (capitão, imediato, um oficial, um mestre e catorze marinheiros, todos ingleses ou escoceses), um dispenseiro e um cozinheiro preto. Os passageiros eram um casal americano de Buffalo, uma jovem e bela inglesa, “a criada grave” da americana, um engenheiro de Manchester, um negociante de Cardiff, dois franceses, pai e filho, residentes no Havre e um tal J. B. Kazallon, cuja maior importância provém de ser ele o autor do diário que entre Setembro de 1869 e Janeiro de 1870 fixou as desditas do Chancellor. Porque este é um dos raros romances de Verne (só me lembro de outro mais) escritos na primeira pessoa, ou seja, em que existe uma “voz off” que é a voz de Kazallon.
O narrador também é inglês (de Londres) mas não será inocente que neste “filme de terror” quase todos os personagens sejam sinistros, à excepção dos dois franceses, da tal “criada grave”, do imediato, e, obviamente, do narrador.
Segundo as boas regras, tudo começa sob os melhores auspícios. Mas, ao fim de pouco tempo, destaca-se, pelo comportamento bizarro, o capitão que impõe à galera inexplicável rumo. Felizmente, o homem descobre a tempo a sua impotênciae delega funções no imediato, que será o grande herói da fita. Só que já se perderam bastantes dias e, naquelas paragens, há um tempo para o mar e um tempo para a terra.
Rapidamente, nova desgraça: fogo a bordo, na carga de algodão. O imediato consegue manter segredo (só descoberto pelo narrador e poucos mais). Até que um dia, este (o narrador) surpreende uma conversa do negociante de Cardiff com o engenheiro de Manchester, em que o primeiro diz ao segundo que meteu clandestinamente na bagagem um boião com cerca de trinta libras de picrato de potássio, danado explosivo.
“Infame! Pois não sabe que temos fogo a bordo?”, ruge Kazallon. O pânico espalha-se, o negociante enlouquece e acaba por se atirar borda fora e toda a gente espera ver a galera explodir, quando uma tempestade a atira contra uns rochedos. Males que vêm por bem. Os rombos no casco deixam que o mar apague o fogo que, por milagre, não chegara ao boião. Mas impedem o barco de continuar viagem. Alguns cobardes (cinco, incluíndo o ex-capitão e o americano de Buffalo) roubam o salva-vidas e poêm-se a milhas. “Cinco salvos”, diz o mestre. “Cinco perdidos”, responde com mais sabedoria um velho marinheiro irlandês.
Lá fazem das fraquezas forças e constroem nova jangada, enquanto mais três marinheiros morrem e morre também a velha americana, abandonada pelo marido. Dos vinte e sete ficaram dezoito para um terrível mês de Dezembro, em que a jangada foi parar à zona das tempestades, assim chamada porque “observador de ouvido fino sentirá continuamente o estrondear do trovão”. Falta comida, falta de água. Deitaram sola de molho, mas a sola era tão rija que não a podiam tragar. Um dia morre mais um marinheiro. Quando o atiram ao mar, já lhe falta um pé, que foi servir de isco para a pesca. Com outro morto fazem-se menos cerimónias. Só não foi comido todo, em bródio de gáudio, porque o jovem francês, horrorizado, atirou ao mar, durante a noite, o que sobejara do manjar de um dia.
“É mister” (espantosa expressão que cada passo se encontra na tradução de Marianno Cyrillo de Carvalho que é a minha deste livro) é mister, dizia eu, que, aqui chegado, vos tenha que contar uma ou duas coisas sobre os tais franceses. O pai, Letourneur, homem de cinquenta anos, é a honestidade em pessoa. Fere-o, porém, mágoa máxima. O filho, André, nasceu aleijado de um parto em que lhe morrera a mulher. Desde aí, vive para André, que educou, com quem viaja e que acima de tudo protege. André, vinte e pouco anos, herdou as virtudes morais do pai, mas fisicamente de poucos préstimos é.
Volto ao meu conto. Felizmente, entre a marujada esfaimada, ninguém se apercebeu que fora André a atirar aos peixes os restos do cadáver. Mas pressentindo que o acto veio de um “civilizado” querem vingança de classe. “Capitão, em que dia tiraremos à sorte?”
O dia chegou a 26 de janeiro, quando já só restavam onze dos náugrafos. O narrador só no fim percebeu porque é que o honrado Letourneur se ofereceu para a “tarefa sinistra”. Ao nono nome disse: “Letourneur”. “Qual? perguntou o mestre. André! responde o pai. Ouve-se um grito. André cai desmaiado – Avia-te! exclama rugindo o carpinteiro Daoulas cujo o nome e o de Letourneur são os únicos restantes no chapéo, tira o penúltimo bilhete e, sem que a voz lhe trema, com uma firmeza que não era de esperar d’aquelle velho, pronuncia esta última palavra: Daoulas!”
A seguir, rasgou sem ler o último bilhete. Mas o narradorconsegue apanhar um bocadinho onde lê: “And…”. “O pai sacrificou-se pelo filho, e não possuindo mais que a vida para lhe dar, deu-lhe a vida.”
Chega o clímax. O velho Letourneur ainda propõe aos algozes um negócio. Para dez, o corpo dele é mais que suficiente. Contentem-se hoje com os meus dois braços e amanhã comam-me o resto. O negócio é aceite, mas o capitão e o narrador não suportam tanto. Atiram-se aos outros que, por sua vez, os atiram borda fora. E é quando o narrador engole a água que descobre que esta é doce e que, sem o saberem, navegavam há dias no Amazonas, “único rio de corrente tão abundante e impetuosa que repelle a água do mar até vinte milhas da foz!”
À noite, a galera Chancellor estava em terra a varar.
Assim me despeço das índias mais negras de Júlio Verne, dito escritor para jovens e para a boa edificação destes. Porquê? Acham que não foi?

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_04_01_archive.html

«O grisú e os canibais (I)», 1-IV-2005.

1.Por maior que seja o meu gosto por efemérides, juro à fé de quem sou que não me apanham a discutir os méritos ou deméritos relativos de Sartre e de Aron. Para esse peditório já dei e até julgo que generosamente. Voltar a ele, a pretexto de centenários, nem com luvas de amianto. Embora não resista a divertir-me com títulos como “o intelectual dos intelectuais” ou “o homem que nunca se enganou”. Cala-te boca…
Pelo contrário, Júlio Verne puxa-me o pé e puxa-me mesmo por aí acima de qualquer deles. Também é verdade que, no caso dele, se não comemoram berços mas sepulcros, pois que o homem, se fosse vivo, (Aquário como eu, nascido no dia seguinte ao dia dos meus anos) contaria 177 anos bem contados. 77 tinha ele quando morreu, em Amiens, a 24 de Março, ainda Sartre nem nascido era e contava Aron apenas dez dias.

2. Antes de me ir à memória, uma divagaçãozinha gramatical sobre mistérios da língua portuguesa.
Tal como nunca ninguém me conseguiu explicar porque bulas a proposição a se contrai ou descontrai do artigo dos artigos definidos a ou o em nomes de povoações ou de países, também me é identicamente misteriosa a razão ou razões por que se “aportuguesam” alguns nomes próprios estrangeiros, conservando-se no original a maioria deles.
Dou exemplos, para ser claro.
Porque é que se diz “ir a Cascais” e “ir ao Barreiro”, ou “ir a França” e “ir ao Japão”? Depende das consoantes por que começa o substantivo próprio? Não depende nada, já que igualmente se diz “ir à Finlândia” e “ir a Java”, “ir ao Cadaval” ou “ir a Braga”. Também nada tem que ver com vogais no início do substantivo. Diz-se “ir à América”, mas ninguém diz “ir à Almada”, diz-se “ir a Évora” mas nunca ouvi dizer “ir a Estónia”. Pura e simplesmente, não há regra ou eu nunca conheci José Pedro Machado que ma explicasse. Mas dá que pensar que digamos todas da mesma maneira ou, quando alguém troque (por exemplo: “ir à Espanha” ou “ir à França”) que logo lhe identifiquemos a condição social, já que só o “povo” aglutina assim em vez de assado.
À excepção de alguns puristas, sobretudo do século XIX ou da primeira metade do século XX, não é de bom tom, em português, “aportuguesar” nomes de gente célebre. Não me estou a ouvir, nem estou a ouvir ninguém que conheça, a citar Honorato de Balzac, Henrique Stendhal, Guilherme Shakespeare, Luís de Beethoven, José Verdi, João Bellini, Marcos Rothko ou Frederico Murnau. Mas sei que faço figura de pedante se disser Michelangelo em vez de Miguel Ângelo, Raffaello em vez de Rafael, Victor Hugo (com acento no o de Victor e no o de Hugo) em vez de Victor Hugo, como se estivesse a falar do matemático. Pior ainda (muito pior) se estiver a desfiar nomes de reis. Louis XIV, Henry VIII ou Wilhelm II, não se espera ouvir nem da boca do mais pintado. Por que sim ou por que não quem saiba que mo explique, que eu só sei responder como se responde aos “porquês” das crianças: “por que sim” e está tudo dito sem se dizer nada.
Tanta conversa para quê? Para observar que, além do autor de Les Misérables (e, neste caso, era preferível escrever Os Miseráveis) Júlio Verne é o único escritor do século XIX a que raríssimos portugueses chamam Jules Verne. A imensa popularidade tem que ver com isso, no caso de Hugo como no caso de Verne? É bem possível. Eles foram dos pouquíssimos que foram quase integralmente traduzidos no seu tempo e lidos por portugueses que não sabiam palavra de francês, coisa que no século XIX, e até cerca de 1960, era sinal de incultura grassa. A “sociologia cultural”, embora não explique Miguel Ângelo ou Rafael, pode explicar o Júlio Verne, que se pegou aos espíritos cultivados por contágio dos baixíssimos ou dos pré-adolescentes que em tempos idos o liam.

3. Júlio Verne, assim o conheci eu também, entre os meus 8 e os meus 12 anos, mais coisa menos coisa.
Em casa dos meus avós, como em casa dos meus pais, havia prateleiras de estantes cheias, com as edições que começaram por ser de David Corazzi, subnominadas “imprensa horas românticas”, e passaram depois para a Bertrand (Ailland e Bertrand), mantendo-se idênticos o formato, a encadernação, o encarnado (às vezes o verde) e as gravuras da capa: uma bananeira com uma serpente enroscada no caule; um leão; um navio naufragado com um vago vulcão ao fundo; e um balão pelos ares. Para além do título da obra, lia-se em maiúsculas itálicas, a quase toda a altura, a expressão Viagens Maravilhosas.
Por uma dessas edições (de 1888 – mas já era a terceira) conto eu trinta e dois volumes já editados nesse ano em português, sendo que vários deles eram duplos ou triplos (A Aventura do Capitão Hatteras, Os Filhos do Capitão Grant, Vinte Mil Léguas Submarinas, A Ilha Mysteriosa, Miguel Strogoff, O Paiz dos Pelles, Heitor Servadac, Um Heroe de Quinze Annos, A Casa a Vapor, Keraban o Cabeçudo, Mathias Sandorf, Norte Contra Sul) e um (As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes) era quíntuplo, o que, bem feitas as contas, perfaz quarenta e oito livros, que haviam de chegar aos setenta e dois, à data da morte do escritor. A grafia usada era o esplêndido português anterior ao malfadado acordo de 1911, em que se escrevia A Esphinge dos Gelos e Luctas de Marinheiro, tanto na Rua Garrett em Lisboa como na Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro.
Esses livros, esse encarnado, essa ortographia, essas figuras da capa, mergulhavam-me em tal êxtase, que me consolava bem de não me deixarem tocar nas luxuosas edições da Hetzel, com gravuras de Neuville, Férat, Laplante ou Doré, que havia em casa do meu Avô Bénard, no original. Numa delas, escreveu o meu Avô a lápis: “Donné par mon père le 27 Juin 1880″. Era o dia dos anos dele, 11 no caso em questão, que é o de Vingt Mille Lieues Sous Les Mers, que tivera primeira edição em 1870. Só 71 anos depois, a 1 de Maio de 1951, passaram tais livros à minha posse, oferecidos pela minha Avó.
O meu Avô leu Verne em 1880, como o meu Pai o leu em 1907 e eu o li em 1945. Três gerações educadas a Verne, mas já não juro pela quarta, pois que, apesar dos meus esforços, em 1970 ou durante essa década, os meus filhos já não devem ter terminado nenhum dos romances dele. Verne durou de 1860 a 1960, pelo menos como “leitura global”. Raros serão hoje os maiores de 50 anos que entraram na adolescência guiados pelos filhos do Capitão Grant ou reencontraram o Capitão Nemo na ilha misteriosa. “Chamaste-me Capitão Nemo?” A mim chamou-me (e de que maneira!) naquele escritório da Rua do Jardim do Tabaco, que ficava logo à direita da porta da entrada e onde uma escura livreira de mogno guardava as viagens maravilhosas que me levaram aos pólos e ao equador, à lua e ao fundo dos mares, à estrela do sul e ao centro da terra.

4. Mas a minha introdução a Verne não foi escrita, foi oral. Tinha eu 9 anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Uma das netas do poeta, que era minha professora – Maria da Luz de Deus Ramos que, depois de casada, já fora desse tempo, se chamou Maria da Luz Ponces de Carvalho, a Luzinha como então todos lhe chamávamos – ocupava parte da aula da tarde a ler-nos Verne. O primeiro livro que assim nos leu foi As Índias Negras, que se situava nas hulheiras de Aberfoyle, na Escócia de outras eras.
“Pede-se ao engenheiro Jaime Starr o obséquio de se dirigir amanhã às hulheiras de Aberfoyle (…) onde lhe será feita uma comunicação da mais alta importância.” Assim começava esse livro. A hulha havia-se esgotado nas minas que foram abandonadas, mas estranhos mistérios ocorriam nas profundezas dela. Após muitas peripécias – e para muito resumir – descobria-se que o antigo capitão da mina (“Overman”, chamou-lhe o tradutor), um velho de nome Silfax, que todos julgavam morto, se refugiava nas galerias dela, acompanhado por uma neta e por uma estranha ave, um harfang, tão mais insólito quanto nunca consegui perceber de que espécie de pássaro se tratava. O velho ensandecido procurava uma vingança contra quem lhe roubara o último filão das velhas hulheiras e também o amor da neta. O plano dele era libertar grisú, um gás explosivo, e fazer ir a mina abaixo, com todos os que o haviam roubado. Terrível era a aparição final do velho, no meio de um lago subterrâneo, “de olhar sinistro, barbas alvíssimas, caindo sobre o peito, roupas talares e a cabeça coberta por um capuz”. Tinha na mão uma lâmpada de Davy e com ela queria fazer explodir o gás, o grisú. “Oh, grisú, oh grisú… Soou a hora da minha vingança!” No último minuto, dava-se a salvação e a morte de Silfax.
Mas, até chegar aí, foram tardes e tardes em que eu nada mais esperava do que saber que mistério escondia a mina e quem era o fantasma que a habitava. O suspense foi demasiado. Precipitei-me para o livro e, nesse mesmo dia, começou a minha compulsiva paixão por Verne, que durou três anos e trinta livros. Começaram também os meus pesadelos com Verne, revendo o velho e o harfang de “penas brancas mosqueadas de pintas negras”.
Os pesadelos ainda os consegui transmitir. Em carnavais da Serra da Estrela, em casa da Zézinha e do António Alçada, quando a neve caía lá fora, antes de deitar os meus filhos mais velhos (7 e 6 anos à época) eu contei-lhes resumidamente esse extraordinário romance, detendo-me, como a Luzinha fizera comigo, na descrição das tenebrosas galerias da mina, no pássaro sinistro e na aparição do velho com o seu grito de vingança. Imitava o gesto de “horrível imprecação” que Silfax soltou ao ver frustrados os seus intentos. Grito que foi o último que proferiu, pois se precipitou nas águas do lago que não quiseram restituir à sua presa.
As crianças ouviam-me aterradas e, ainda hoje, a minha filha Ana estremece a evocar os pesadelos infantis, provocados pelo grisú, pelo harfang e pelo velho Silfax com a sua barquinha e o seu “riso cavernoso”, enquanto se espalhava o cheiro do “hidrogénio protocarbonado”. Imaginem que eu lhe tinha contado a história dos canibais da Galera Chancellor! Não conhecem? Esperem até à próxima sexta-feira. Já não têm 7 anos.

In http://filmesvida.blogspot.com/2005_04_01_archive.html