“A Espada e a Rosa de João Nicolau irá representar Portugal no Festival de Veneza deste ano, a decorrer entre 1 e 11 de Setembro. Não existe qualquer sentimento nacionalista nesta afirmação – trata-se, simplesmente, da primeira e breve análise que o filme de Nicolau suscita.
A primeira longa-metragem do realizador português traz aquilo que já conhecíamos das suas curtas. Para além da aparição de rostos e personagens já existentes no universo do autor (como o caso de Marta do Monte, personagem da curta-metragem Canção de Amor e Saúde, ou mesmo da empregada doméstica de Rapace, cuja entrada é feita no primeiro dos vários momentos musicais do filme, numa autêntica e renovada celebração da melodia e da rima portuguesa), A Espada e a Rosa dá asas maiores ao mundo de fantasia e aventura que rompe pela realidade dos seus protagonistas. Neste caso, trata-se da viagem de Manuel, um jovem que vive sozinho em sua casa com o seu gato, à semelhança de Hugo em Rapace, cujo entusiasmo diário partilha-se entre a música, o futebol e algumas saídas nocturnas, saídas essas onde se vislumbra a cidade de Lisboa à noite e que lhe são quase fatais, a dado momento. É então que Manuel decide viver, outra vez, o “sonho”: embarcar de novo na caravela, qual português, e aventurar-se no mar com a sua tripulação de amigos, todos eles juntos para viverem a sua fantasia. A partir daqui, as portas estão todas abertas para a entrada e saída de personagens, canções, conversas físicas e metafísicas sobre os desejos e as vontades de cada um na personificação da sua aventura, assim como a realização final que, por cada fantasia, existirá também um custo – uma liberdade individual que, porventura, existirá a prejuízo de outros, com uma cena final em que o sentimento de sonho parece associado à exposição física e à vontade firme de uma figura parental, cujo nome, paradoxalmente, se chama Rosa.
O filme de Nicolau abre portas a várias interpretações – assim se pensa no terreno do imaginário -, cuja primeira surpresa surge na inteligência com que se propõe o imaginário aventureiro e simbólico português, espalhado em canções, referências históricas, geográficas e literárias (de Camões ao Brasil), cujo peso colonial da aventura não é também esquecido, podendo sugerir-se, inclusivamente, uma interpretação política de uma aventura portuguesa. Mas isso é apenas uma sugestão de pensamento, tal como tantas outras que sugerem a densíssima aventura que é este filme.
Trata-se, sem dúvida, de um filme que parte do quotidiano do realizador para se enriquecer, primeiro, com aquele que já é o seu imaginário cinematográfico, como também o cinema e a história de um país e as suas relações e contactos com o outro. Definir esta obra como um filme português não surge como qualquer conotação a uma etiqueta ou opinião pré-concebida sobre uma imagem das nossas imagens – mas sim como uma constatação da inteligência como o filme se apresenta por essa maneira e trabalha sobre elas.
O filme merece estudo e vários visionamentos – as cerca de duas horas e meia que propõe não chegam para assimilar prontamente tudo aquilo que sugere, ou melhor, tudo aquilo que as suas portas abrem para os olhos do espectador. Existe, pelo menos, uma certeza: este é um filme sobre todos nós. Não arrisco a dizer que se trata de um filme geracional (talvez mais por timidez do que por outra razão), mas trata-se, seguramente, do olhar de uma geração para tudo aquilo que nós somos e, afinal, para o sonho em que as nossas vidas assentam, ou como vivemos, ouvimos, lemos e crescemos neste espaço. Como ser português faz parte desse sonho – uma existência em constante procura. E a isso devemos também ao cinema de João Nicolau para descobri-lo.”
In http://dacasaamarela.blogspot.com/2010/08/espada-e-rosa-primeiras-impressoes.html
Filed under: 2010, Da Casa Amarela, VALENTE, Francisco

Não sou de ficar comentando mas vou comentar aqui, belo post!