“Ver Oliveira aos 102 anos, e sobretudo os seus filmes, já suscitam, por si, os enormes aplausos que recebeu no evento de abertura da programação da Cinemateca Portuguesa em Janeiro. Durante todo o mês, a Cinemateca coloca-se a pergunta “o que é uma [programar]* cinemateca hoje?”, tendo escolhido o mais ancião dos realizadores para dar o princípio de uma resposta que verá a sua conclusão num dos seus mais jovens: João Nicolau, com a exibição de “A Espada e a Rosa”, a sua primeira longa-metragem.
Esses aplausos não se resumem apenas ao contentamento de ver alguém vivo e a criar, livremente, as suas obras mais íntimas — é também o resultado de uma certa projecção de ver alguém ultrapassar os limites tradicionais da vida graças à sua actividade e interesse por uma forma de arte: o cinema, aquilo que mantém Oliveira vivo, desperto e sempre interessante, a sua qualidade angelical.
É pois em O Estranho Caso de Angélica que Oliveira debruça-se, talvez de forma mais evidente, sobre aquele que é o seu próprio tempo, confundido com aquele do cinema: tão velho quanto a sua arte, praticamente, Oliveira pega numa experiência de jovem (a da aparição feminina) e numa história escrita após a Segunda Guerra Mundial, para dotar-lhe de toda a contemporaneidade que conhece — entre histórias de judeus perdidos nos seus caminhos e que procuram lutar contra fantasmas do passado, surge o jovem Isaac que encontra uma vida sonhada para além da morte no rosto de uma jovem falecida, uma vida onde se regressa à sua forma mais pura e amada, conforto que não encontra no seu caminho terreno e sofredor, sem identidade nem amor. O momento da aparição, ponto em que a sua vida se transforma e conhecerá o espírito daquilo que sempre procurou pelo seu aparelho fotográfico, é dos mais belos do cinema de Oliveira, uma homenagem também às origens do cinema (à inviolável magia e ilusão de Méliès) às quais o realizador pertence e sustém ainda, por esta via, como forma válida de criação e de vida.
Se a sua produção é modesta, a sua geografia concisa e, por vezes, incaracterística, será mais pelo respeito de um retrato do presente e pela consciência, cada vez mais rara, que os caminhos do seu cinema não estarão numa espectacularidade que distraia os sentidos do espectador, mas que reconheça a história de uma forma de arte e dos seus sentidos que ainda não precisam, apesar do desenvolvimento tecnológico para-cinema, de uma forma especial dentro dos seus filmes (os “especiais efeitos especiais”). Mas que se essa forma existe, será para existir dentro da matéria do seu próprio filme, e não tornar-se em matéria (vazia) por si mesmo, engolindo as próprias origens de onde foi criada.
Talvez apenas Oliveira consiga-o fazer desta maneira, um filme “sábio” mas também inocente, o ponto mágico de alguém que transmite inocência respirando sabedoria — afinal, é ele que carrega esse cinema consigo, que é história e faz história a partir dele, ainda na novidade —, mas o seu “estatuto” (sublinhado por esses aplausos) ainda não fazem dele, como nunca fizeram, felizmente, o “professor” que se poderia vislumbrar pelas suas palavras ou pela sua “forma”, sempre tão controversa no nosso país mas aclamada no estrangeiro, como se pôde ainda ver o ano passado pelo percurso deste filme nos Estados Unidos. O Oliveira angelical será bem-vindo, modesto e inspirador, pelo seu estranho caso de vida e inspiração na falecida Angélica, viva e amada pela ilusão do cinema.”
In http://dacasaamarela.blogspot.com/2011/01/o-caso-angelical-de-oliveira.html
*[rectificação minha por sugestão de Nuno Rodrigues, a quem agradeço o reparo!]
Filed under: 2011, Da Casa Amarela, VALENTE, Francisco

Só para corrigir: “o que é PROGRAMAR uma cinemateca hoje?”.
Obrigado