«As Cinzas e o Maneirismo Italiano», 28-I-2005

1. Foi em Setembro. Eu estava a mostrar Veneza à mais nova das minhas Mónicas. Os dragões de Carpaccio fechavam à hora do almoço deles, que não coincidia com a do nosso. Nem tudo são azares, já que dragões não almoçam certamente no Harry’s Dolce da Giudecca (um dos lugares mais paradisíacos da terra e [...]

«Saraband», 21-I-2005

1. Apetecia-me começar este texto sobre o último filme de Bergman comentando uma frase de Liv Ullmann que li algures: “Filmes e pessoas não envelhecem da mesma maneira.” É tão certo. Mas, como os críticos portugueses acentuam, quase invariavelmente, o retorno do mesmo Bergman como um regresso da casa dos mortos (alguém que já tinha [...]

«Legenda Áurea», 14-I-2005

1 – Vai para uns tempos, puxei de rufos e tambores para saudar a edição de “A Bíblia dos Jerónimos,” em parceria entre a Bertrand e a FMR. Vai para uns tempos? Que digo eu? Já o ano mudou de quatro para cinco e os tempos de que falo são tempos do ano passado. Às [...]

«Recantos do Natal», 24-XII-2004

1. Na província não neva (o poeta é um fingidor) e, mesmo que nevasse, nunca passei um Natal na província. Também nunca passei um Natal na neve ou com neve. Confesso que tenho alguma inveja. Um Natal, como esse da Judy Garland em “Meet Me in St. Louis”, com muitos bonecos de neve e a [...]

«”A Bíblia dos Jerónimos”», 17-XII-2004

1. “Sometimes, there is God. But so quickly”, diz Blanche DuBois na peça de Tennessee Williams “A Streetcar Named Desire”, da única vez que lhe parece acontecer uma coisa boa.
No meio de todas estas coisas tão pretas, tive essa sensação, na semana passada, na Torre do Tombo, quando fui assistir ao lançamento de “A Bíblia [...]

«Confusão de Narizes», 10-XII-2004

1. Ignoro a origem desta deliciosa expressão e assim, do pé para a mão, não achei quem ma explicasse. Já é muito tarde para telefonar a alguém que me possa ajudar. Mas prefiro passar por ignorante a perder expressão particularmente válida para esta primeira dezena de um Dezembro português, no ano da Graça de 2004. [...]

«Os 80 Anos de Mário Soares», 3-XII-2004

1 – Quando, em 1940, restauraram os chamados “Painéis de S. Vicente”, sobre os quais divaguei na semana passada (PÚBLICO, 26 de Novembro de 2004) alguém observou certas semelhanças entre um dos rostos do hipotético “Painel dos Pescadores” e o semblante do dr. Oliveira Salazar. Ao que se contava (sobre os Painéis não juro nada), [...]

«Malinconia Lusitana», 26-XI-2004

1. Agora que Franco Maria Ricci se aproximou de Portugal, a revista que há poucos meses deixou de ser dele (embora dele conserve as iniciais efémeras) dedicou, pela primeira vez, um artigo a uma obra de arte alegadamente portuguesa. Para mim, ver os Painéis, ditos de Nuno Gonçalves, nas páginas da minha revista de arte [...]

«O Segredo da Porta Fechada», 19-XI-2004

1. Em tempos que já lá vão, um primo meu, que se fosse vivo tinha feito anos ontem, contou-me uma história bem típica dos “efeitos do real” nos primórdios das sessões cinematográficas por esse Portugal profundo.
Numa vila alentejana, passou um filme que tinha como protagonista uma actriz de pernas bem bonitas, que, a certa altura, [...]

«Recordações Imaginárias: o Tempo da Cabala», 5-XI-2004

1 – O termo cabala surgiu no léxico político português recente com Ferro Rodrigues, quando este, na sequência da prisão de Paulo Pedroso e de rumores que também o incriminavam (o famoso “e o Ferrinho também não escapa”, atribuído a um desembargador folgazão), veio a terreiro avisar que estava em curso uma cabala contra o [...]

«Os Retratos Premonitórios», 22-X-2004

1. Regressado da Arrábida (ando agora muito cronológico), o meu primeiro acto “oficial” foi receber Hanna Schygulla, a actriz de Fassbinder, convidada pelo Festival Temps d’Image para um espectáculo no CCB, onde de resto não fui, salpicado por alguns filmes dela exibidos na Cinemateca. Passou de raspão (“Storia di Piera”) e vi-a de raspão, porque [...]

«A Mata do Solitário», 15-X-2004

1. Faz tempo que não nos víamos. A 27 de Agosto, bem avisei que nas próximas cinco semanas não ia haver eu. Mas prometi que voltava a 8 de Outubro, “se Deus quiser”. Temente a Ele, não posso dizer que foi Ele quem não quis (embora a conversa desse pano para mangas). Eu é que [...]

«Antigamente, a Escola… (II)», 27-VIII-2004

1. A minha última crónica acabou algo abruptamente. A verdade é que não expliquei as razões que me levaram ao reitor do Camões. Prometi, logo a abrir, que o faria “mais adiante”. Mas ia tão lançado que, quando cheguei ao tal “adiante”, já não tinha tempo e, sobretudo, já não tinha espaço.
É o mal (ou [...]

«Antigamente, a Escola… (I)», 20-VIII-2004

1 – Não, antigamente a escola não era risonha e franca, como no pré-histórico poema (“O Estudante Alsaciano”) que, em versão portuguesa, aprendi com a minha Avó e galhardamente recitava – ao que me contaram – empoleirado num banco do Jardim da Estrela, para pasmo dos basbaques e vergonha da minha Mãe, que me surpreendeu, [...]

«Sophia: Memória – 2 de Julho de 2004», 6-VIII-2004

1 – Começa a ser sina. De cada vez que me afasto, em peregrinações minhas longamente preparadas, toca o telemóvel com uma notícia terrível. Munique, Agosto de 2002, Cumes, Maio de 2003, Génova, Julho de 2004. Mortes ou outras coisas que sabemos. Sabia que iam acontecer. Esperava-as. Mas não ali, onde parecem tão súbitas, tão [...]

«O Protagonista Ausente», 30-VII-2004.

1. Quem leu as minhas duas últimas crónicas (PÚBLICO, 16 de Julho, PÚBLICO, 23 de Julho) sabe já que fui a Génova para ver Rubens e, sobretudo, a exposição L’Età di Rubens.
Eu sabia, à partida, que não ia ver uma grande exposição monográfica, uma dessas tantas dedicadas ao pintor. Se fosse esse o meu objectivo, [...]

«Cem Olhos para Rubens», 23-VII-2004.

1. Nas Metamorfoses (Livro I, 584-750) narrou Ovídio a história de Io, a bela ninfa da Tessália pela qual Júpiter se apaixonou. Para conseguir os seus intentos, tomou, dessa vez, a forma de uma nuvem, que obscureceu por completo o bosque onde se escondera a virgem que daria a felicidade a quem quer que a [...]

«Os Róis de Génova», 16-VII-2004.

1. No início do IV acto de A Gaivota de Tchekov, em casa de Sorine, pouco antes da chegada de Irina Nicolaevna Arkadina mai-lo seu reconquistado Trigorine, decorre uma daquelas “conversas de farrapos” em que o escritor foi insuperável. Parecendo que nada se diz, tudo se diz. Tudo sobre tudo num aparente nada sobre nada, [...]

«A Imaculada Ascensão da Capela Oballe», 25-VI-2004.

1 – Graças a França – não ao país, mas a José-Augusto -, posso datar o acontecimento com alguma probabilidade de certeza.
Foi em 1943 – era a guerra e eram Franco e Salazar – que – numa exposição de arte espanhola destinada a estimular uma amizade de fachada, com muitas suspeitas por baixo – um [...]

«A Poesia da Morte», 18-VI-2004.

1 – Os meus avós paternos tiveram nove filhos, nascidos entre 1880 e 1900. Nada de excepcional, nesses tempos e no meio social que era o deles. Mais excepcional é que desses nove, oito tenham chegado a adultos, já que “isso de crianças morre muito” como dizia uma velha criada minha, também vinda desses tempos. [...]

«”Stiffelio” e o Pecado do Remorso», 11-VI-2004.

1. Verdi em estreia portuguesa em 2004? À primeira vista parece incrível. Mas os mais verdianos saberão que quatro óperas de Verdi nunca se estrearam em Portugal. “Un Giorno di Regno” – a segunda ópera do compositor – estreada em 1840; “I Lombardi alla Prima Crociata” (1843), “Alzira” (1845) e “I Masnadieri” (1848). Podia ter [...]

«A Gravidade e a Graça», 4-VI-2004.

1 – Antigamente, era lamúria de lavradores.
Todos os anos eram maus, sobretudo todos eram piores do que o ano passado, que já tinha sido péssimo. Agora, continuam a ser os lavradores – ao que parece, espécie em vias de extinção – mas também todos os que não são lavradores. Por exemplo, e para me acercar [...]

«Agustina», 28-V-2004.

1 – “A justiça é uma coisa furtiva como um ladrão na noite.” Agustina Bessa-Luís ganhou o Prémio Camões. Foi em Maio de 2004.
2 – Foi em Maio de 1957 que eu comprei o meu primeiro livro de Agustina. Assim dito, dou-me agora conta, parece o princípio da história do Mestre André (“Foi na loja [...]

«Dalí, a Omelete e o Português», 14-V-2004.

1 – “Oh Salvador Dalí, de voz aceitunada!” Fazia-o morto há muitos anos, era de Inverno e era de 1989, e ei-lo que ressuscitou, finalmente centenário, a 11 de Maio desta semana, dia da festa de Catarina de Pozuelo. Tinha obrigação de saber mas estava distraído e foram os jornais quem mo lembrou. Saudades? Não [...]

«A Noite de Ceres», 7-V-2004.

1 – A 11 de Agosto de 2001 – poucas horas antes de um dos mais duros telefonemas da minha vida – , na Alte Pinakothek de Munique, o Jorge fez-me reparar que o “descanso na fuga para o Egipto”, um dos temas mais recorrentes na pintura ocidental entre o século XV e o século [...]

«Griffith e as Censuras Correctas», 30-IV-2004.

1 – A Cinemateca conserva muitos cortes de censura. Ou seja, muitos rolinhos de pedacinhos de filmes (em certos casos, rolões e pedações) que os censores, antes do 25 de Abril, cortaram em inúmeros filmes, quando achavam que estes genericamente podiam ser vistos, desde que expurgados de certas cenas mais inconvenientes. Há cinco anos, Manuel [...]

«Tempos Difíceis», 23-IV-2004.

1 – Roubo o título da crónica de hoje a António Barreto, que assim chamou a uma das crónicas dele com que mais me identifico (PÚBLICO, 11 de Abril de 2004). Ele que me desculpe, embora eu admita, em testemunho inicial, que o roubo foi premeditado, plenamente consciente e sem nenhuma circunstância atenuante.
2 – A [...]

«Doces Folias (I)», 27-II-2004.

“… la douce folie de parler avec des fantômes durant la moitié de sa vie”
Jean Louis Schefer
1 – Desde 1997, Jean Louis Schefer manda-me, com regularidade, os livros que publica e que, nestes quase sete anos, são já 19. Tudo começou, andava eu de cadeira de rodas, quando ele veio a Lisboa, num Julho suave, [...]

«Princesas de Gelo, Princesas de Fogo», 13-II-2004.

1 – Hoje, para mim que escrevo ontem, ontem para o leitor que me lê hoje, ocorre uma efeméride em que os chamados acasos da vida, das leituras e das audições me fizeram reparar e de que certamente raríssima gente se lembrou: a 12 de Fevereiro de 1954 – há cinquenta anos – estreou-se em [...]

«Para as Bandas da “Playboy”», 30-I-2004.

1 – Uns artiguitos, por aqui e por acolá, informaram-me que a “Playboy” fez 50 anos. Primeiro pensei: “Meu Deus, como o tempo passa!” Depois, melancólico, realizei que as mais tenrinhas das “bunnies” de há 50 anos têm hoje a minha idade. Marilyn – na celebérrima foto nua do número 1 – era bastante mais [...]