nova morada em http://www.paulomfcunha.com/criticacinport/

nova morada em http://www.paulomfcunha.com/criticacinport/

«CISNE: “Mergulhar, nas calmas, numa piscina do nosso futuro sangue”», 1-IX-2011

CISNE: Encontro Imediático com Teresa Villaverde
CISNE: “Mergulhar, nas calmas, numa piscina do nosso futuro sangue”
…do nosso futuro sangue”. Depois de dois filmes das profundezas – Mutantes (1998) e Transe (2006) – Teresa Villaverde emerge com Cisne, a sua sexta longa-metragem. Mas atenção, que são turvas as águas e haverá sempre lodo no cais
Ana Margarida de Carvalho
16:51 Quinta feira, 1 de Set de 2011

Há rótulos tão pegajosos como moscas numa tarde de Verão. E que, mesmo depois de enxotadas, voltam, e pousam, e insistem, teimam, repisam e irritam. Não é que a nova longa-metragem de Teresa Villaverde, Cisne (estreia-se quinta, dia 8, depois de passar pelo Festival de Veneza, dia 6) não detenha alguma atenção sobre elas, as moscas, a dada altura do filme, mas neste caso, estes insectos inoportunos vêm mais a propósito das ideias que depois de feitas dificilmente se desfazem. Por isso fica aqui, uma espécie de post-it logo à cabeça desta entrevista, para fixar, de vez, a advertência que a realizadora passa o tempo a fazer. Não, Vera (Beatriz Batarda), a protagonista do filme, não é uma fadista. Canta descalça, com voz de fadista (Ana Moura), às vezes fecha os olhos como as fadistas – mas, repete Teresa, “Vera não é fadista”. Pode ser noctívaga, insone, padecer de saudades, nostalgias, amores emaranhados e chorar lágrimas de sangue mas “não é fadista”. Portanto, ficamos entendidos, albarde-se a personagem à vontade do dono, e “Vera não é fadista”. Nem há fado nem cisne, um pássaro presente nas mitologias e cosmologias de todo o mundo, carregado de simbologias, o grande pato branco, tão lunar quanto feminino – mas mudo. Aliás, num filme povoado por animais, perdizes, galinhas, um pavão, caranguejos, um coelho, uma cadelinha bebé, o único que não comparece é o dá título ao filme.

VISÃO: O seu filme chama-se Cisne mas só fala de patinhos feios: personagens perdidas, errantes e solitárias, filhos rejeitados pelas mães, uma mulher com nanismo…
TERESA VILLAVERDE: É curioso, mas não vejo nada assim. Talvez possa concordar que todos são um pouco solitários, mas associo mais essa solidão à própria liberdade de que precisam. E pessoas errantes podem ser cisnes. Não sabemos como acaba a história do filho com a mãe. A mulher pequena é uma anã, é bonita e sente-se bem no seu corpo.

Já disse que Cisne é um filme “sobre amor, justiça e música” – só que o amor é inexequível ou uma perversidade, a justiça é sangrenta e praticada pelas próprias mãos e a música não redime nem salva… Parece que nada funciona, nem os conceitos que são, à partida, benignos…
Os amores neste filme são amores difíceis, não são inexequíveis. São amores que ficam inteiros mesmo com imensas dificuldades. Amor perverso, não sei o que é, presumo que se esteja a referir à pedofilia, mas isso não tem nada que ver com amor, acho mais oposto ao amor do que o ódio, o ódio é que pode, por momentos, ser uma espécie de amor, talvez. A pedofilia está sempre ligada à destruição, e o amor (mesmo o inexequível), vejo-o sempre ligado à construção. Há de facto um momento de justiça pelas próprias mãos, embora não seja óbvio se a criança se está a vingar a si ou às outras crianças. Não muda muito, mas muda alguma coisa. É um momento de libertação assistido por um cisne mudo, como são mudos todos os cisnes.
Quanto à música, ouvi-la ou compô-la é muito diferente do que tocá-la ou, neste caso, cantá-la em público. A apresentação em público é muitas vezes uma fonte de angústia. Há artistas que sentem que criam enquanto se apresentam em público, normalmente os grandes intérpretes, mas um compositor, uma cantora que componha, pode não sentir nada disso, e sentir um enorme vazio. Mas isso não tem que ver com a música em si. Há até, claro, casos muito conhecidos de enormes intérpretes que não viam a utilidade da apresentação em público, ao ponto de se recusarem e só gravarem em estúdio. Eu penso que também existem momentos complexos na vida em que um criador possa pensar que é possível atingir uma espécie de paz que dê a ilusão de que não é preciso criar mais. Imagino que seja sempre uma ilusão. Imagino que um criador não saiba parar de criar.

Então, se Vera [a não fadista] não é o cisne deste filme, quem é?
Eu acho que nenhuma das personagens é o cisne. O cisne é uma testemunha muda do que se passa com eles. É um campo magnético impresso numa parede. É perto do cisne que a criança age e é também perto do cisne que a Vera pausa e talvez decida sobre o que fazer com ela própria e com a criança.

O filme abre com uma cena violentíssima: pássaros a serem largados por mãos infantis para serem abatidos logo a seguir. Isto causa um desconforto, como se qualquer daquelas personagens tão frágeis que vagueiam por ali também estivessem prestes a ser abatidas a qualquer momento. A ideia era cria-se um ambiente de violência latente?

Sim, é um pouco como se fosse o manto do mundo. Todos os terrenos que pisamos, foram já pisados por outros. Penso muito nessas coisas. Sabe, acho que é muito importante ter tempo, quando só corremos esquecemo-nos de imensas coisas. Achei importante começar o filme assim. Gosto que a primeira frase que se ouve seja “está viva”, é um rapaz que diz referindo-se a uma perdiz que não morreu com o tiro que a apanhou. O rapaz também participa na morte dos pássaros, mas naquele momento esquece-se disso, e fica do lado do pássaro.

À primeira vista, Cisne parece ter uma temática mais adulta, depois de os Mutantes (sobre miúdos abandonados) e de Transe (sobre o tráfico de uma rapariga), mas continua muito presa ao imaginário das crianças e a ecos das suas anteriores obras. Além de dedicar o filme “às crianças”, Cisne está povoado de um referencial infantil. Até os adultos parece que não cresceram, são imaturos, não aprenderam as coisas da vida, a amar-se, etc…

Não tenho ainda distância suficiente para analisar o conjunto dos filmes que já fiz, e não sou muito (nada) de rever os filmes, mas claro que reparo que alguns temas são recorrentes, sou eu. Acho que as coisas vão mudando naturalmente. Estou já bastante embrenhada na escrita do próximo e sinto uma grande diferença, por exemplo, no tratamento das crianças. Mas voltando a este filme e aos personagens, não os vejo imaturos, escolheram caminhos não comuns, talvez. Não estão encarreirados no sentido comum de projectar um trilho e ir por ele a fora, e não me parece que sintam a necessidade de andar lado a lado com um grupo definido de pessoas, mas é uma escolha, não é o acaso. Acho que hoje há muito uma coisa que para mim é estranha que tem que ver com os amores úteis, as paixões úteis que nos fazem bem e que nos resolvem coisas. Nesse aspecto sou muito Camiliana, não vejo nada o mundo assim, e fascinam-me imenso as pessoas que mergulham nos amores impossíveis, ou possíveis mas dificílimos de viver. A piscina cheia do nosso futuro sangue e mergulhamos nas calmas. Adoro isso.

Mas o casal, a não fadista Vera e o violocelista Sam só se consegue amar à distância, o que já si é estranho, mas ainda mais estranho é comunicarem por escrito. Já ninguém escreve cartas, e usa o correio tradicional…

… pero que las hay, las hay. Uma carta em papel é uma coisa lindíssima. Acredito nessa necessidade de escrever todos os dias, escrever pode viciar. Ela fica desnorteada por não lhe estar a escrever. Ele foi para casa dela, e ela com isso perdeu o norte. E ele também porque não a lê. Nem toda a gente pode viver de uma forma simples ou clara.

Escuta-se música brasileira (Chico, Caetano, Caymi) ou a cabo-verdiana mas vêm-nos à cabeça o fado. Interessa-lhe este universo? O cliché da fadista descalça, noctívaga, cheia de amores emaranhados, nostalgias e saudade?
Também tem muito John Cage, e muitos russos, Shostakovich e mais. Fado é que não tem. Gosto muito de fado, mas a Vera não é fadista. Quem deu a voz à Vera, sim, porque a voz da Vera quando canta é da Ana Moura. As canções são do Chico Buarque, mas não são nem fado nem samba. A Nina que o Chico Buarque fez para o filme, fala de uma mulher russa que escreve cartas a partir de Moscovo para alguém que está num país distante. É a Vera a cantar como se fosse o Sam. Foi ideia do Chico fazer assim, primeiro achei que não podia ser, mas depois vi que ele tinha razão e que era muito mais bonito assim, ela a cantar como se fosse ele.

Chico Buarque é recorrente nos seus filmes…
Eu ainda hoje fico muitas vezes embasbacada com o que ele faz com as palavras, com o que consegue pôr numa canção. Como brinca. Ele diz que nunca mudou uma nota nas canções em que só fez a letra, às vezes não se acredita. Como é que pode ser possível, mas é. Ele é incrível, temos imensa sorte por partilhar a mesma língua.

Para além da música, há contrastes visuais muito fortes, de fotografia e de decores… Muita noite e muito dia. Os ambientes sofisticados do hotel, dos bastidores e da casa da [não] fadista e o barracão surrealista da margem sul. Tanto Tejo e tanta aridez na lezíria…
Acho esses contrastes muito importantes. Gosto que uma pessoa possa estar de manhã num hotel de 5 estrelas em Lisboa e à tarde num barracão no meio do nada. É que o barracão e o hotel são perto, é triste ficar só de um dos lados quando se é livre de andar de um lado para o outro. Ela, a Vera, tem mais mobilidade porque tem dinheiro, pode escolher. O Pablo anda com o carro caro de um dos mundos até ao outro, vai de um lado para o outro num instante. A casa dela, é uma casa enterrada na terra pelo Eduardo Souto Moura, confunde-se com a paisagem.

Neste filme mistura uma actriz consagrada (Beatriz Batarda), com não actores ou pouco experientes como Miguel Nunes, de Morangos com Açúcar. É difícil conciliar registos?
Não é uma coisa nova para mim misturar actores mais experientes com outros que o são menos ou até sem experiência nenhuma. A Beatriz é uma actriz extraordinária, é muito fácil e um prazer, trabalhar com ela. O Miguel Nunes é um actor que veio para ficar, tenho a certeza. Foi tudo bom e fácil.

Porque agradece, nos créditos finais, “o empurrão solidário” de José Saramago Pilar del Rio?
Ser cineasta em Portugal é uma profissão de risco grande e às vezes não há o que pôr na mesa, e espera-se um tempo infinito até se poder trabalhar. Foi por causa de uma conversa que tive com o José Saramago e com a Pilar que decidi fazer os impossíveis e abrir a minha própria produtora. Percebi quando saí de casa deles que era o momento de fazer isso. Ainda pude escrever ao José Saramago a contar o que tinha feito e que o empurrão tinha sido deles.

Uma vez Caetano Veloso revelou que a Teresa lhe teria dito que não era possível viver sem música, que se podia dispensar até a literatura, mas nunca a música… É uma afirmação surpreendente sendo a Teresa realizadora…
Penso que não foi bem isso que eu disse. Por acaso também vi o programa em que o Caetano Veloso conta essa conversa, mas claro que no fundo, no fundo não acho nada disso, nem ele, de certeza. Mas de qualquer forma o que estávamos a dizer era que o que faria mais falta era a música, caso se parasse com a produção de tudo, mas ficava-se com o feito até agora. Não sei viver sem o cinema, não consigo imaginar.

O que contrapõe a estas novas correntes que falam em políticas culturais de apoio a monumentos e abandono das artes vivas?
Acho muito triste esse tipo de raciocínio. O dia de Portugal é o dia de Camões, honra-se o Camões, poeta maior, mas os poetas de hoje que morram de fome. É tão obviamente importante, sobretudo até em tempos de crise, o trabalho dos artistas que é estranho esta forma que as vezes o poder tem de nos olhar. Espero que os meus colegas no cinema e também nas outras artes, não se deixem abater. Havemos de conseguir sair disto. Temos que continuar a criar, a pensar em voz alta, a ajudar à discussão e reflexão sobre tudo o que tem que ver com a vida de todos. Como artista não sei parar, mas se calhar só não paro se me ajudarem de outros países. Não seria a primeira vez. Mas para quem está a começar agora, é muito difícil a ajuda do estrangeiro. É grave.

“Os ricos que paguem a crise” sempre foi um slogan da esquerda, agora são os próprios a defender essa ideia. A esquerda precisa de mudar de bandeiras nestes revirares de tabuleiros?
Nunca me revi nesse slogan, sempre me pareceu, ‘os ricos que paguem a crise que eu vou ali e já venho’. Não percebo isso. Não me parece que os ricos queiram pagar a crise, penso que não querem ser odiados, e que não lhes interessa um mundo só de pobres. Sabem que tem que haver os que não são nem ricos nem pobres, para lhes comprar as coisas. Os sacrifícios dos ricos não são sequer comparáveis com os do resto das pessoas. Preocupo-me muito com os velhos, não sei o que lhes vai acontecer. Penso que os novos vão emigrar. É estranho termos chegado aqui. Há toneladas de coisas para a esquerda defender. Tenho muita pena que a esquerda portuguesa não se entenda seriamente.

Pessoalmente assumiu sempre posições de esquerda, mas cinematograficamente mostra sempre uma visão pessimista sobre a humanidade, e sobre o que os homens são capazes de fazer uns aos outros… O que nos pode salvar?
Não sei. Acho que o melhor é irmo-nos salvando a par e passo. Vivemos tempos complexos. Há muita gente confusa sem saber o que fazer e há muita gente aflita que não sabe o que vai ser o amanhã. O mundo está a viver um abanão. A situação da Europa é muito má, a situação africana é bem pior. E num instante se dá a volta ao mundo de avião. Enfim…

Este é um filme falsamente optimista. Ou seja, há uma imagem de redenção final, de um sono de tranquilidade com uma cadelinha num colo, mas pode ser aparente ou efémero porque depois há os olhos da criança a mostrar que o trauma ficou e ficará sempre lá…
Não sabemos o que será o futuro daquela gente, mas aquele momento é um momento de paz. Um machado ali é para cortar lenha.

Mas essas pessoas parecem tão engaioladas ou condenadas como os tantos pássaros que enchem o filme…
Talvez, mas têm a chave da porta da gaiola e os pássaros não.

Ler mais: http://aeiou.visao.pt/cisne-mergulhar-nas-calmas-numa-piscina-do-nosso-futuro-sangue=f620206#ixzz1WyNH0bWA

«’Mistérios de Lisboa’ nos Óscares?», 7-VIII-2011.

Vale a pena reparar com atenção, e alguma disponibilidade mental, na estreia comercial de Mistérios de Lisboa nas salas dos EUA (ocorrida na passada sexta-feira). De facto, o filme de Raúl Ruiz, produzido por Paulo Branco, pode estar a conseguir uma proeza singular para o cinema português: a de ser um sólido fenómeno de prestígio, não apenas nos circuitos de festivais, mas também através de uma presença muito consistente no mercado americano, tradicionalmente difícil para a maioria dos títulos europeus.

Repare-se: não se trata de favorecer qualquer tipo de triunfalismo nacionalista, banal recurso de muita informação “cultural” que passa nas televisões (afinal de contas, temos telejornais capazes de se alhear olimpicamente de acontecimentos deste género, enquanto repetem até à exaustão o trailer de Harry Potter…). Nem se pretende omitir o facto de se tratar de um lançamento de escala reduzida, para circuitos “especializados”. Acontece que não é comum podermos encontrar uma produção de raiz portuguesa a ter o impacto que Mistérios de Lisboa está a construir no espaço americano, surgindo nos destaques semanais de jornais como o New York Times e o Village Voice, ou ainda conseguindo ser o filme mais cotado da semana para os 16 críticos do site IndieWire (indiewire.com).

O reconhecimento de Mistérios de Lisboa excede o âmbito especificamente cinematográfico, remetendo-nos também para as questões mais gerais da difusão cultural portuguesa. Por exemplo, no prestigiado e influente Salon.com, o crítico Andrew O’Hehir, elegendo-o como “filme da semana”, lamenta não ter encontrado disponível nenhuma tradução inglesa do livro de Camilo Castelo Branco em que se baseia.

Na prática, tudo isto abre uma hipótese muito linear que vale a pena colocar em termos estratégicos, isto é, inequivocamente políticos. A saber: nunca tivemos nenhum filme português com tantas potencialidades para ser trabalhado de modo a conseguir chegar a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Que se vai fazer face a tal oportunidade?.

Não ignoro que está a decorrer uma petição pública para que um outro filme (José e Pilar) seja escolhido para tal efeito. Escusado será dizer que não se trata de discutir a opinião dos respectivos signatários, muito menos a legitimidade do seu gesto, ainda que, por princípio (muito anterior à existência de José e Pilar), considere errado assumir qualquer opção de política cultural a partir de uma petição pública (mesmo que, no final, essa opção e o sentido da petição acabem por coincidir).

in http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1947494&seccao=Jo%E3o%20Lopes

«Das duas uma», 17-VII-2011.

“Tenho que reparar uma falta: confesso que não fui ver às salas José e Pilar, o documentário que Miguel Gonçalves Mendes dedicou aos últimos anos de vida de José Saramago com a sua mulher, Pilar del Río.

Mas a saída do filme em DVD dá-me o pretexto para reparar essa falta e recomendá-lo a toda a gente. Eu sei que a visão de um filme em casa não substitui a visão na sala (é como ver um quadro ou a sua reprodução), mas dá para perceber o extraordinário trabalho que Miguel Mendes nos legou. E para fazer algumas chamadas de atenção.

A PRIMEIRA: em 2010 foram exibidos nas salas 7 documentários portugueses, contra 15 longas-metragens de ficção, o que não deixa de ser um fenómeno inédito e de louvar. A segunda é que Miguel Mendes só à terceira tentativa é que conseguiu ver aprovado o seu projecto pelos júris do ICA, e só depois de as produtoras de Almodóvar e de Fernando Meirelles (o realizador de Ensaio sobre a Cegueira) terem decidido investir no filme. A terceira é que José e Pilar fez até agora cerca de 22.000 espectadores só em Portugal (além de ter sido um êxito em Espanha e no Brasil), ou seja, mais do que a média dos outros 15 filmes de ficção nacionais (3 dos quais tiveram menos de mil espectadores).

Aquarta é que Miguel Mendes passou três anos com o casal, entre idas e vindas a Lanzarote e viagens pelo mundo a acompanhar o Nobel e a sua mulher – o que foi fundamental para que ambos se habituassem à sua presença, e para que, em vez da tentação da pose (quando não há essa relação de confiança), ou, pelo contrário, do voyeurismo (quando o realizador é um intruso), o filme nos mostre o lado mais espontâneo de um e outro e se tenha tornado um dos mais preciosos documentos sobre os últimos anos de um grande criador que alguma vez alguém fez. Ao seu lado, o filme que Wim Wenders fez sobre Nick Ray é um objecto obsceno.

MIGUEL Mendes, que tem 33 anos e se prepara para filmar O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ajudou-nos a perceber e admirar Saramago e revela-nos algumas coisas importantes: uma, é a fantástica história de amor entre José e Pilar, que desafia a idade e as idades; a segunda, é a extraordinária mulher que é Pilar, uma mulher de grandes convicções e com uma força invulgar, cuja relação com Saramago contribuiu também para reavivar o sonho de uma grande Ibéria, onde caberiam todos os povos da península, sem hegemonias nem submissões, e que, desde o século XV, alimentou a imaginação das coroas peninsulares, de D. João II a Carlos V.

JOSÉ e Pilar é, a todos os títulos, um filme admirável e um contributo decisivo, graças ao que revela da grandeza de um e outro, para revelar a nossa óbvia vocação ibérica e aproximar finalmente os povos de Espanha e de Portugal, sem rancores nem ressentimentos. Seria o melhor tributo que poderíamos prestar a estes dois personagens admiráveis que Miguel Mendes nos ajudou a conhecer ou descobrir.”

in http://sol.sapo.pt/inicio/Opiniao/interior.aspx?content_id=24321&opiniao=Opini%E3o

E Mesmo que Assim Não Fosse. Um blogue para Rodrigues da Silva

“Iniciamos hoje o blogue de homenagem a Rodrigues da Silva, onde publicaremos os seus textos sobre cinema e não só.
6 de Jan de 2010”

Ler mais: http://aeiou.visao.pt/e-mesmo-que-assim-nao-fosse=s25247#ixzz1TdLruQng

http://aeiou.visao.pt/e-mesmo-que-assim-nao-fosse=s25247

«“Estrada de Palha”, um filme de resistência em estreia mundial no Curtas Vila do Conde», 10-VII-2011.

Castelo de Vide, Novo México
“Estrada de Palha”, um filme de resistência em estreia mundial no Curtas Vila do Conde
10.07.2011 – Jorge Mourinha, em Vila do Conde
diminuiraumentar

“Estrada de Palha” é filme de resistência, western-chispalhada sonorizado na perfeição pela música do Legendary Tigerman e Rita Redshoes.

“Western transmontano? Não me lixes!”, comentava amigo a propósito da ideia de um western português cujo herói é um pastor de montanha emigrado, que regressa ao Portugal sem lei do princípio do século XX para vingar a morte do irmão.

É precisamente aí que reside a corda bamba em que Rodrigo Areias decidiu equilibrar a sua segunda longa-metragem, “Estrada de Palha”, apresentada em estreia mundial ontem à noite, em tempo de abertura do Curtas Vila do Conde 2011. Um pouco como Kelly Reichardt em “O Atalho” (actualmente em exibição), mas de modo mais paisagístico, menos austero, Areias utiliza as coordenadas do género para fazer outra coisa que não seja forçosamente aquilo que as pessoas esperam. No caso, adaptar o ensaio de Henry David Thoreau “Desobediência Civil” e mostrar como as palavras escritas em 1848 pelo pensador americano sobre a cidadania enquanto dever de resistência à injustiça continuam actuais.

Isto não terá caido forçosamente bem em Vila do Conde, numa sessão esgotadíssima que começou com atraso, já passava da meia-noite, e que estaria provavelmente à espera de algo mais “levezinho”, menos conceptual, mais lúdico do que o que Rodrigo Areias apresentou. A presença de Paulo “Legendary Tigerman” Furtado e Rita Redshoes, para interpretarem ao vivo a maravilhosa banda-sonora que compuseram, ajudou certamente à electricidade que se vivia. Mas também acabou por exacerbar as forças e as fraquezas de um filme sedutor, cinéfilo até à quinta casa, que nunca se esgota na mera citação ou no pastiche de cineastas maiores, e que procura realmente construir um discurso próprio, estético, social, político.

Houve, por isso, uns quantos desistentes durante a sessão, algum desconforto e não temos certeza que os resistentes tenham abarcado tudo o que ali se jogava; na sua curta apresentação, o realizador fez questão de recusar o choradinho do cineasta sem dinheiro, de falar da resistência à resignação de nunca haver dinheiro para nada. E “Estrada de Palha” é um filme de resistência por trás da sua aparência de western derivativo, com a sua personagem principal a regressar de uma longa ausência para descobrir um país diferente do que deixou, literalmente entregue aos bichos – o que cai que nem ginjas no Portugal de hoje, ao mesmo tempo que o seu lado assumidamente rural remete para a emigração.

Nada disto invalida que “Estrada de Palha” seja tão fascinante como desequilibrado. O problema principal reside num argumento que reduz as personagens secundárias a cifras sem explicação ou arquétipos sem espessura, e que acelera inesperadamente em correria louca em direcção a um final anti-climáctico, quase negando o ritmo “a trote” e a saborosa estrutura em episódios. Contra isso há um trabalho notável, cuidadíssimo, de imagem e ambientação, e uma fabulosa interpretação de Vítor Correia, que arca com o filme todo aos ombros em tom de grande herói dos westerns-spaghetti.

E não é tanto de Ennio Morricone que se deve falar na extraordinária banda-sonora, apesar da piscadela de olho pontual; mais do paisagismo desértico e da sábia gestão de silêncios e sons de Ry Cooder, impecavelmente reproduzida em palco por Paulo Furtado e Rita Redshoes. Não tanto “Paris, Texas” como “Castelo de Vide, Novo México”.É exemplar daquilo que Rodrigo Areias quis fazer – um objecto estilizado, resistente, carta fora do baralho num país onde cinema continua a ser dividido maniqueisticamente como “telefilme ampliado” ou “umbiguismo autoral”.

“Estrada de Palha” não é uma coisa nem outra: não é um western-chispalhada, mas é um filme que ousa ser diferente – e isso merece respeito. A ver como será a reacção quando chegar a sala, mais para o fim do ano.

in http://ipsilon.publico.pt/Cinema/texto.aspx?id=289339

«Durante o Fim: ESCAVAR RUI CHAFES», 29-VI-2011

Durante o Fim, de João Trabulo
Durante o Fim: ESCAVAR RUI CHAFES
Durante o Fim, de João Trabulo, pode ser visto, antes de mais, como um prolongamento da obra de Rui Chafes ou algo que a complementa de forma relativamente eficaz. Serve de veículo entre o trabalho de escultor e um público. A arte como intermédio da própria arte.
Manuel Halpern
13:32 Quarta feira, 29 de Jun de 2011

Durante o Fim, de João Trabulo, pode ser visto, antes de mais, como um prolongamento da obra de Rui Chafes ou algo que a complementa de forma relativamente eficaz. Serve de veículo entre o trabalho de escultor e um público. A arte como intermédio da própria arte. Não é que o trabalho artístico precise de legendas, mas este aconchegamento fílmico torna-nos mais próximos da sua beleza e eventualmente da sua essência. Do escultor e do seu discurso. Há um entendimento latente entre João Trabulo e Rui Chafes. Mas o jogo não se dá ao mesmo nível. O filme não foi uma encomenda, mas antes uma opção do cineasta que quis ir ao encontro do que admirava, porventura na tentativa de encontra pistas para o desvendar. Há assim uma nobre posição de humildade do realizador, que se submete por respeito ao universo do escultor, recusando, à partida, qualquer espécie de protagonismo ou toque de personalidade que não sirva o propósito máximo de mostrar Rui Chafes. De certa forma, este não é apenas um filme sobre Rui Chafes, mas um filme do próprio Rui Chafes.
Contudo, conhecendo a ainda curta obra de João Trabulo, apercebemo-nos de que há aqui uma coincidência formal, que não será certamente por acaso. Ou seja, este fascínio por Rui Chafes conjuga-se na personalidade fílmica do próprio Trabulo. Percebe-se bem as semelhanças, o estilo desenhado, sempre sóbrio e contemplativo, se revermos, por exemplo, Sombras – Um Filme Sonâmbulo, que fez a partir de Teixeira de Pascoaes. Mas mesmo em relação a Sem Companhia, que talvez seja a sua melhor obra enquanto realizador, tem pelo menos em comum essa sobriedade e a opção por planos fixos. Só que se em Sem Companhia a solução vinha do constrangimento espacial, em é uma opção estética clara.
O universo de Rui Chafes, a sua relação com a natureza, não evocam curiosamente a portuguesa saudade, mas antes uma melancolia típica dos climas do centro da Europa. Daí se encaixe neste mundo outros filmes, de que Trabulo se socorre para pintar o seu, do romantismo alemão e de Tarkovski. As obras estão lá por uma afinidade estética, mas também por uma necessidade complementar de entender a escultura de Chafes a partir das suas raízes mais ocultas.
Tudo isto nos conduz ao encontro com o escultor e as suas palavras que de alguma forma o explicam. “O artista tem a missão de transportar a palavra, ou a chama, ou como lhe quiserem chamar…. transportar isso intacto e transmitir a outras pessoas”, assim se define Rui Chafes no filme. E diz mais: “O artista, com a sua consciência especial do mundo, vê as coisas antes dos outros e oferece-as”, com dotes promontórios. Contudo afirma: “Acho que a arte não é para o futuro, é para o passado; não é para os vivos, é para os mortos, como diz Genet, para o imenso povo dos mortos”.
João Trabulo seguiu Rui Chafes durante três anos para nos oferecer uma obra contemplativa, que tenta mostrar a arte pelo lado interior, fazendo muito mais do que descrever descrever o seu método de trabalho ou procurar leituras rápidas. Durante o Fim abre-nos os olhos para a escultura de Rui Chafes. A estreia comercial do filme coincide com a exposição do escultor no CCB.

Durante o Fim, de João Trabulo, 70 min

in http://aeiou.visao.pt/durante-o-fim-escavar-rui-chafes=f610189